Textos teatrais, contos, crônicas, poemas, artigos, radionovelas e muito mais. Meu cantinho virtual onde exponho minhas obras e àquilo em que acredito.
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quarta-feira, 21 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
QUE LINDA!
Tati segurando o livro "Tatiana Belinky - Uma Janela para o Mundo", do qual fui colaborador e que foi lançado pela Editora Perspectiva, em dezembro de 2012,
sexta-feira, 2 de maio de 2014
PALAVRAS DE SABEDORIA
"Pais atrapalham muito em teatro infantil. Ou sentam na frente da criança, que não enxerga nada, ou ficam mandando calar a boca, mandando bater palma. Perturbam e inibem as crianças. Ao passo que um teatro lotado de crianças, com um monitor só em volta, é o melhor público do mundo, o mais espontâneo, o mais verdadeiro." (Tatiana Belinky)
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
terça-feira, 15 de outubro de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
CHICO BELEZA
Pelas areia da istrada
Com as perna já meio bamba
Um dispotismo de gente
Vinha cantando num samba
Fazendo um grande berreiro!
E quem puxava a istruvanca
Era o Mané Cachacero,
O mais grande dos violero
Que im tudo sertão gimia!
E era assim que ele cantava
e no canto assim dizia:
“Diz os véiu di otras era que quando
São João sintia sodade de Jesus Cristo
e de sua companhia,
garrava logo na viola pra chora sua sodade
e a sua melancolia!”
Entonce logo os apostro
Assombrando o istruvia
Cada um pé de verso
Cantava no desafio.
A mãe de Cristo chorava
E as água que derramava
Da fonte do coração
Caia nas corda santa
Da viola de São João
Pra via disso é que o pinho
Instrumento sem rivá
Quando se põe-se chorando
Se põe-se a gente a chorá,
Foi aí neste festero
Que eu vi o Chico Cambaro
Um sambadô sem sigundo
Mas porém feio, tão feio
Que toda a gente dizia
Que foi o home mais feio
Que Deus butou neste mundo!
Tinha a cara de priguiça
Cabeça de mono véio
E pescoço de aribú!
A boca quando se ria
Taquarmente paricia
A boca de um canguru!
Tinha as oreia de porco
E os dente de caitetu
Tinha barriga de sapo
E o nariz impipocado
Figurava um jenipapo.
O braço era taliquá
Dois braço sirigaito
Dum véio tamanduá
Os óio – dois berimbau
As perna fina alembrava
As perna dum pica-pau
O quexo de capivara
Tinha um bigode purriba
Que quage tapava a cara!
Os cabelo surupinho
Era, em tira nem pô
Cabelo de porco-ispinho!
Im concrusão, pra findá,
Tinha os dedo de gambá
Os ombro redondo e chato
E os pé que nem pé de rato!
Inda mais: pra compretá
Aquela xeringamansa
A feiúra do pagode
O home, quando se ria
Era um cavalo rinchando
E quando tava suado
Tinha um oroma de bode.
Apois bem.
Essa raboeza
Que era pru todas as boca
Chamado: Chico Beleza,
Esse horrive lobisome,
Que era mais feio que a fome,
Mais feio que o Demo inté,
Quando as perna sacudia,
Sambando nargum banzé
Enfeitiçando as viola
Apaxonando as muié
Trazia toda as caboca
Cumo um capaxo dibaxo
Das duas sola dos pé!!!
Poema de Tatiana Belinky, escrito em 1960 para o programa Teatro da Juventude, exibido pela extinta TV Tupi.
Com as perna já meio bamba
Um dispotismo de gente
Vinha cantando num samba
Fazendo um grande berreiro!
E quem puxava a istruvanca
Era o Mané Cachacero,
O mais grande dos violero
Que im tudo sertão gimia!
E era assim que ele cantava
e no canto assim dizia:
“Diz os véiu di otras era que quando
São João sintia sodade de Jesus Cristo
e de sua companhia,
garrava logo na viola pra chora sua sodade
e a sua melancolia!”
Entonce logo os apostro
Assombrando o istruvia
Cada um pé de verso
Cantava no desafio.
A mãe de Cristo chorava
E as água que derramava
Da fonte do coração
Caia nas corda santa
Da viola de São João
Pra via disso é que o pinho
Instrumento sem rivá
Quando se põe-se chorando
Se põe-se a gente a chorá,
Foi aí neste festero
Que eu vi o Chico Cambaro
Um sambadô sem sigundo
Mas porém feio, tão feio
Que toda a gente dizia
Que foi o home mais feio
Que Deus butou neste mundo!
Tinha a cara de priguiça
Cabeça de mono véio
E pescoço de aribú!
A boca quando se ria
Taquarmente paricia
A boca de um canguru!
Tinha as oreia de porco
E os dente de caitetu
Tinha barriga de sapo
E o nariz impipocado
Figurava um jenipapo.
O braço era taliquá
Dois braço sirigaito
Dum véio tamanduá
Os óio – dois berimbau
As perna fina alembrava
As perna dum pica-pau
O quexo de capivara
Tinha um bigode purriba
Que quage tapava a cara!
Os cabelo surupinho
Era, em tira nem pô
Cabelo de porco-ispinho!
Im concrusão, pra findá,
Tinha os dedo de gambá
Os ombro redondo e chato
E os pé que nem pé de rato!
Inda mais: pra compretá
Aquela xeringamansa
A feiúra do pagode
O home, quando se ria
Era um cavalo rinchando
E quando tava suado
Tinha um oroma de bode.
Apois bem.
Essa raboeza
Que era pru todas as boca
Chamado: Chico Beleza,
Esse horrive lobisome,
Que era mais feio que a fome,
Mais feio que o Demo inté,
Quando as perna sacudia,
Sambando nargum banzé
Enfeitiçando as viola
Apaxonando as muié
Trazia toda as caboca
Cumo um capaxo dibaxo
Das duas sola dos pé!!!
Poema de Tatiana Belinky, escrito em 1960 para o programa Teatro da Juventude, exibido pela extinta TV Tupi.
domingo, 21 de julho de 2013
MAIS UMA OBRA RARA
Estou a todo vapor, digitando textos raros de Tatiana Belinky. Acabei de concluir As Aventuras de Tom Sawyer - que foi o primeiro programa em série da história da televisão brasileira. E encontrei, em folhas avulsas, o roteiro que segue abaixo. Trata-se do
PROGRAMA DE TRANSIÇÃO ENTRE ANGÉLICA E JARDIM ENCANTADO
exibido em 24/11/1959
na TV Tupi
O texto abaixo não foi alterado. Está exatamente como se encontra no original mimeografado. Mais uma obra rara, que não irá se perder com o tempo.
CAMERA ABRE EM JG
JG - Boa noite, telespectadores. Pois é. Terminamos Angélica, a sexta história da Programações Lacta. Poucos dias atrás, no dia 5 de outubro, completamos três anos deste programa e entramos no quarto ano.
Programações Lacta já tem, pois, uma história. Essa história, porém, começa onze anos atrás, no dia 29 de novembro de 1949.
FOTO 1
VOZ DE JG - Era o aniversário da Susi, filhinha de um grande amigo. E os papais resolveram se divertir mais que as criancinhas e inventaram fazer um teatrinho na sala de visitas. Representamos Peter Pan.
As reações do público nos deixaram encantados. E vai daí, veio a vontade de fazer espetáculos para crianças, em teatro de verdade. Estava organizado o TESP - Teatro Escola de São Paulo.
FOTO 2
Montamos histórias de bichos e contos de fadas, que representávamos em colaboração com a Secretaria de Educação - isso durante quase dois anos. Fizemos mais de uma centena de espetáculos cada vez para um público diferente. Adquirimos uma experiência enorme sobre a psicologia e o comportamento do público infantil.
FOTO 3
Uma das histórias, Os Três Ursos, com Lúcia Lambertini e Davi Neto, uma história de Natal, teve um êxito muito grande e fomos convidados a apresentá-lo na televisão. Por que isso aconteceu, nem eu saberia dizer. O fato é que, no Natal de 1951, estávamos na televisão pela primeira vez.
E poucos dias depois iniciávamos Fábulas Animadas...
FOTO 4
...um programa dedicado à infância. Estreou com A Cigarra e a Formiga, com Lúcia Lambertini na Cigarra - papel que até hoje Lúcia Lambertini lembra com saudade. Estreava também, naquele dia, na direção de TV, Luiz Galon.
FOTO 5
Foram onze os diretores de TV que desde então dirigiram a nossa equipe. Além de Luiz Galon, Elio Tozzi, Antonino Seabra e agora Humberto Pucca. Os três primeiros receberam os maiores prêmios anuais de televisão pela direção de Programações Lacta. Fazemos votos para que também Humberto Pucca receba este ano e merecidamente, os cobiçados prêmios anuais.
FOTO 6
O Teatro Escola de São Paulo sempre procurou formar técnicos e atores novos. Aqui está Odete Lara, em sua estreia em Branca de Neve. Inúmeros atores e produtores hoje em grande projeção na TV e no teatro tiveram seu início neste programa.
FOTO 7
Além de José Serber, o Gênio da Lâmpada de Aladin e todos aqueles que ainda hoje estão conosco como Lúcia Lambertini, Wilma Camargo, Hernê Lebon e todos aqueles tão conhecidos, outros foram levar o seu talento para outros lugares como Ítalo Rossi, Líbero Miguel, Odete Lara e tantos outros que seria longo demais enumerar.
FOTO 8
O Sítio do Picapau Amarelo também começou naquele tempo. Este é O Casamento de Emília. O criador do Marquês de Rabicó, Ricardo Gouveia, está hoje com mais de 1,80m de altura e é autor e diretor de teatro para crianças.
FOTO 9
O Teatro Escola de São Paulo deixara de ser uma brincadeira e começamos a nos dedicar seriamente a um trabalho educacional e de higiene mental procurando contribuir para a formação de novas gerações.
FOTO 10
Gradativamente fomos percebendo que um trabalho dessa natureza poderia ser dirigido não só à criança, mas a todas as idades. Idade é, antes de mais nada, um estado de espírito e sempre é tempo para rever os nossos conceitos de bem e de mal.
FOTO 11
Na nova orientação, estávamos apresentando às quintas-feiras, histórias em série como Heidi. Verinha Darcy era bem pequenininha. E as terças-feiras...
FOTO 12
...no mesmo horário, continuava o Sítio do Picapau Amarelo. Foi então...
GT "TERÇAS E QUINTAS FEIRAS"
...que os dois horários diferentes se juntaram num só.
GT "PROGRAMAÇÕES LACTA"
No dia 9 de outubro de 1956, iniciava-se Programações Lacta com...
GT "POLLYANNA"
...Pollyanna, a história sentimental e transbordante de amor e de carinho.
FOTO 13 (POLLYANNA)
...que enterneceu tanta gente... E a nós também. Verinha Darcy...
FOTO 14
...e David José e mais Lúcia Lambertini, Wilma Camargo, Rafael Golombeck, Moacyr Costa foram os intérpretes daqueles personagens tão vivas e tão humanas e que fizeram tanto bem a tanta gente. Nós mesmos ficamos surpresos com a extensão do êxito. Parecia impossível realizar algo da mesma qualidade e mesmo conteúdo.
FOTO 15
Mas depois de Pollyanna, veio O Pequeno Lorde. Lúcia Lambertini e John Herbert começaram muito bem a nova história. A fórmula de Pollyanna, de certa maneira, se repetia em O Pequeno Lorde. Porém, novos ingredientes
FOTO 16
...como o senso de humor de Mr. Hobbs, aliado à extrema simpatia e naturalidade de Faelzinho Neto, deram tamanha força à história que o êxito se repetiu. Desta vez, era o velho lorde e Conde de Dorincourt...
FOTO 17
...brilhantemente interpretado por Líbero Miguel, quem conquistava os corações dos telespectadores. A festa de encerramento de O Pequeno Lorde foi muito bonita e deixou também muitas saudades.
Porém, terminada uma história, outra deve começar. O público exigia a volta de Pollyanna...
FOTO 18
...Verinha Darcy e David José estavam ficando mocinhos. Estava mesmo na hora de realizar a segunda parte da história - Pollyanna Moça - e os dois simpáticos atorezinhos ao lado de Adriano Stuart, realizaram novamente a façanha de manter presos centenas de milhares de telespectadores.
FOTO 19
Cassiano Gabus Mendes e Dulce Margarida encerraram lindamente a terceira parte da história e o terceiro grande êxito de Programações Lacta. Mas...
FOTO 20
...a televisão é insaciável. E nós precisávamos continuar. Mas para continuar mantendo entre os telespectadores o mesmo interesse, era preciso encontrar uma história diferente. Nicholas...
FOTO 21
Certamente esta história era diferente das outras. Garcia foi durante quase oito meses o homem mais odiado de São Paulo, justamente porque Nicholas era o menino mais querido. Todos nós torcíamos para que o jardineiro espanhol conseguisse escapar da prisão...
FOTO 22
...e provar a sua inocência. Ele fez as duas coisas. O público odiou Garcia, mas odiou com amor e exigiu a recuperação de Garcia.
FOTO 23 (GARCIA BONZINHO)
E a história original teve de ser modificada. Afinal, Garcia não era um homem mau. Era apenas um homem doente. Tratou-se... e curou-se... E terminou a história. E tudo é bom quando acaba bem...
CAMERA JG
JG - E agora? E daí? Novamente era preciso uma história diferente. O problema de uma criança em conflito com um adulto já havia sido utilizado três vezes. Cada conflito exige uma solução e é através do encaminhamento dessa solução que se leva ao espectador uma mensagem de amizade e de compreensão humana.
É preciso porém, que as crianças se deem conta que os mesmos problemas dos adultos e as mesmas dificuldades podem existir também entre elas.
Foi então que resolvemos fazer uma história só com crianças, que teriam de resolver, sozinhas, os seus próprios problemas, num exemplo útil e positivo para a formação da nova geração.
FOTO 24
E veio Angélica. Todas aquelas meninas, Pintadinho, Paradigma, a Alta, Ventania, o Eco de Alta e Geli devem ter trazido uma importante contribuição para uma maior e melhor compreensão entre as pessoas.
FOTO 25
No dia 23 de abril, a nova história já havia se afirmado. Naquele dia estavam estabelecidas, em definitivo, os laços de carinho e de amor entre o telespectador e as personagens do vídeo.
CAMERA JG
JG - Pois é. Terminou Angélica. É verdade, porém, que termiminada na televisão, não está terminada no livro...
etc, etc
terça-feira, 2 de julho de 2013
HERMENEGILDO
Acho que já cansei de falar aqui sobre o problema que tenho quando a morte leva uma pessoa que amo muito. Recentemente, a morte levou embora minha querida Tatiana Belinky. Ainda não superei, continuo muito triste.
Tenho aqui na minha estante centenas de obras de sua autoria, em livros, em papel, datilografado e mimeografado. É isso mesmo, eu disse, mimeografado. Na década de 50, época em que escrevia os roteiros para a TV Tupi, não existia xerox e Tatiana escrevia suas obras num estêncil, depois passava tudo para o mimeógrafo para em seguida entregar os roteiros para atores, direção e técnica.
A cada semestre, Tatiana ou Júlio Gouveia, não sei dizer, encadernava esses roteiros num grosso volume de 700 a 800 laudas, referente a um programa que ia ao ar uma vez por semana. É texto que não acaba mais. E isto porque eram quatro programas semanais. Imaginem quantas laudas ela escreveu em 14 anos para estes quatro programas? O que tenho em mãos são apenas 4 volumes do programa Teatro da Juventude, dos anos de 1959 e 1960.
Depois de digitar aproximadamente 50 textos teatrais da Tati para a publicação do livro Tatiana Belinky - Uma Janela para o Mundo, que a Editora Perspectiva lançou em dezembro passado, pedi para ela esses livrões com os roteiros de TV para que eu digitasse. À princípio ela achou bobagem, disse que dava muito trabalho e que talvez não valesse a pena. Mas logo se convenceu e disse que me pagaria por isso.
- Pagar? - respondi. - Eu é que teria que te pagar por isso.
Sim, de fato, eu teria de pagá-la, porque à cada obra que digitava, eu aprendia com ela.
Como poderia deixar que tantas preciosidades permanecessem fechadas numa biblioteca, pegando ácaros, cupins até que o tempo devorasse tudo e não sobrasse nada? As pessoas tem que conhecer isso. Desejo educar meus filhos, netos, bisnetos e todos os meus descendentes com suas obras, além de meus alunos e amigos.
Toda vez que iria visitá-la, fazia questão de levar alguém comigo. Eu gostaria que todos pudessem conhecer de perto a Tati, não só a escritora, mas o ser humano maravilhoso que ela era. E quem não teve a sorte de conhecê-la, terá a oportunidade de conhecer seu trabalho.
Infelizmente não consegui mostrar para ela os roteiros que digitei. Já foram 33 do ano de 1959 e quando ela partiu, estava digitando o capítulo 4 de Tom Sawyer.
Quando voltei de seu enterro, olhava para aqueles livros e não tinha coragem de abri-los. Pensei que fosse sentir uma dor imensa. E por um tempo, não mexi. Fiquei um tempo isolado no interior e quando voltei pro meu apartamento em São Paulo, entediado, perdido, sem saber o que fazer, peguei o seu livro de crônicas Olhos de Ver.
Demorei um pouco para abri-lo. E quando comecei a ler as primeiras linhas, parecia que ouvia a sua voz me narrando a história. Aquilo foi me dando um alívio, me fazendo um bem danado. Diferentemente do que havia pensado, ler seus textos não me causou dor. Me senti consolado. E, depois de uma hora, já tinha lido o livro todo.
Em seguida, abri o arquivo do Tom Sawyer e dei continuidade à digitação. E como isso está sendo prazeroso. Eu já amava os livros quando a conheci... só que hoje, amo muito mais... e onde quer que eu vá, meus livros estarão sempre comigo.
Se me perguntarem qual é o meu escritor preferido, direi sempre: TATIANA BELINKY. É, sem sombra de dúvida, não uma das melhores escritoras, mas A MELHOR, não só em termos qualitativos, mas quantitativos também. Não conheço ninguém que produziu tanto quanto ela - e olha que conheço muitos escritores.
Obrigado por tudo, Tati. Por me ensinar tanto e fazer de mim, um ser humano melhor.
Certas pessoas deveriam ser imortais - e você seria uma delas. Vai ser difícil encontrar outra pessoa como você.
Aproveito a ocasião para deixar abaixo, uma crônica deliciosa de sua autoria:
HERMENEGILDO
Hermenegildo é um imigrante nordestino, com mais de trinta anos de vida, pouco mais de metro e meio de altura e menos de sete anos de idade mental. Não que ele não seja inteligente, não é isso. É apenas que ele não cresceu muito, nem por fora, nem por dentro: ele é uma criança grande, simples e bem-humorada.
Hermenegildo, analfabeto de pai e mãe, é faxineiro em casa de um amigo nosso, que tem uma bela biblioteca. Vai daí, um dia o nosso amigo resolveu mandar Hermenegildo limpar os livros. Entregou-lhe, pois, um pano macio, uma escova, mostrou como se faz para tirar o pó e limpar as lindas capas e lombadas de couro com letras douradas, e acrescentou:
- Você limpa os livros um de cada vez: tira, limpa e põe de volta no mesmo lugar, do jeito que estava antes. Entendeu?
Hermenegildo entendera. E aquela tarde inteira, Hermenegildo passou a espanar, escovar e esfregar os livros. À noite, o dono da casa chegou e foi inspecionar o serviço - e ficou danado da vida: os livros estavam limpos, é verdade, mas o resto! O patrão chamou Hermenegildo e passou-lhe uma descompostura:
- É este o serviço que você me fez? O que foi que eu lhe falei? Eu não disse que era para você por os livros no mesmo lugar, do mesmo jeito que estavam antes? E o que foi que você fez? Misturou tudo. Não há um só livro no lugar certo, e ainda por cima, metade está de cabeça para baixo! O que é que você está pensando?!
E Hermenegildo, exibindo num grande e cândido sorriso os alvos dentes que brilhavam na cara morena:
- Penso que não tem importância não, doutor: eu não sei ler, mas o senhor sabe.
Não dá para ralhar com o Hermenegildo.
BELINKY, Tatiana. Olhos de Ver. Ed. Moderna, 1989
domingo, 30 de junho de 2013
ENTREVISTA COM TATIANA BELINKY
Extraída da Revista Cultural, publicação da Secretaria da Cultura do Governo de São Paulo, n° 26, setembro de 2001.
sábado, 29 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
quarta-feira, 19 de junho de 2013
QUERIDA MESTRA E AMIGA TATIANA BELINKY VÁ EM PAZ! NOS VEMOS POR AÍ!
PALMAS PARA TATI!
Com mais de noventa anos de idade, a Tati ainda nadava e atravessava mares e oceanos. Em cima de sua bicicleta ela cruzava continentes. E com suas incansáveis pernas, ela corria, descendo vales, desbravando florestas e subindo montanhas.
Quando acordada, com as pontas de seus dedos, Tati Tateava.
Tati tateava as letras, os acentos, as vírgulas e os pingos dos Is. Tateando, Tati sempre encontrava uma rima, ou um duplo sentido nas palavras, divertindo seus leitores e ouvintes, pegando-os diversas vezes, no contrapé.
Tateando, Tati sempre revelava brechas nos pontos finais, como quem diz:
-Nada de ponto final! Não existe final! Afinal, todo final não passa de um portão enferrujado, que ao ser aberto pelas chaves da criatividade e da compreensão, acaba por revelar um universo infinito de novas possibilidades e conexões.
Já na Russia, Tati afrontara o final, antes mesmo de nascer, quando ainda no ventre, assistira sua mãe desafiando altos oficiais do exército vermelho, que haviam condenado seu pai à morte pelo simples fato de ser judeu. No final, todos se safaram e Tati nasceu.
Décadas depois, com seu espírito de vanguarda, Tati novamente desafiara o final, conectando a última capa do último livro da grande obra infantil de Monteiro Lobato, o Sítio do Pica Pau Amarelo, às telinhas da televisão, levando-a a uma popularidade jamais imaginada.
Nas antecâmaras do dops, em tempos de ditadura, Tati também desafiara os limites. Sim! Bem ali ao lado das celas onde muitas vidas foram ceifadas, Tati, fazendo-se de boba, passara para trás cruéis inquiridores, que estavam à caça de seu filho, fazendo-os até mesmo servir-lhe cafezinho e varrer o chão, de modo a deixar o ambiente mais adequado a sua nobre presença!
Passados os anos, Tati, com muito tato, assumira a função de crítica de teatro, novamente desafiando os limites impostos pelas convenções, transformando-se em uma critica que não critica, mas sim, que aconselha.
Na literatura Tati, cuja língua materna era o Russo, passara por cima do grande ponto final do idioma, transformando-o numa enorme vírgula, sinal agregador e inclusivo, redundando inicialmente em traduções e mais tarde em mais de duzentas obras em Português, idioma o qual adotou, alimentou e acalentou, como uma verdadeira mãe faz com seus filhos. Com afeto e risadas. Rimas e limeriques.
Tati também foi uma defensora das liberdades e da diversidade, e como toda defensora sincera dos direitos alheios, Ela, sempre defendeu sua própria condição de judia, através de ferinos argumentos, que não poucas vezes estontearam ignorantes anti-semitas. Seu apreço ao judaísmo também demonstrara com o trabalho voluntário que fizera durante vários anos na revista judaica chabad News e através do carinho à religião e às tradições passado aos seus filhos e descendentes.
Tati não se cansava de lembrar a todos a maravilha que fora o dia em que seu marido, junto com seu filho Ricardo e seu neto comemoraram simultaneamente o seu Bar Mitzvah.
Nas festas de Rosh Hashana, o ano novo judaico, tati fazia questão de cumprir o preceito de ouvir o toque do shofar, o berrante judaico, o que além de ser um preceito bíblico, também lhe evocava lembranças de seus antepassados.
Foi numa destas ocasiões que a conheci, quando fui solicitado por nossa amiga em comum, a Fortuna, que neste exato momento está fazendo um show em homenagem a Tati, para ir até sua casa para tocar o shofar. Fui com minha esposa e filhos. Naquele dia conheci o Ricardo, o amigo mais velho da Tati, como ela sempre o chamava e sua fiel escudeira e anjo da guarda, sua nora Fathia, que tem nome de princesa egípcia, mas que se mostrou uma verdadeira Yidishe mame com sua querida sogra.
Desde aquele dia, eu e minha família nos apaixonamos por Tatiana Belinki e sem exagero algum, posso afirmar, sem virgulas, e só com ponto final, que ela mudou nossas vidas para melhor. Para muito melhor, e para muito além das limitações que estávamos acostumados.
Nos últimos meses acompanhamos sua partida, e foi neste mesmo período que mais aprendemos com sua gigante personalidade e Luz, pois:
Nem mesmo a prisão da cama e da dificuldade de falar impediram-lhe de criar e ditar novos versos engraçados e emocionantes.
Nem mesmo a cegueira, adquirida após o derrame, a impediu de enxergar, pois Tati, desafiando a tudo e a todos, após um pequeno acidente no qual batera levemente a cabeça, voltara a enxergar, semanas antes de sua partida do mundo físico.
Na última semana, com a fala e com os movimentos completamente comprometidos, Tati, imóvel e presa a cama do hospital, não se dera por vencida e vencendo todas as limitações possíveis e imaginárias, com poderes pertencentes somente aos que sabem sonhar e fazer sonhar, viajara em energia e alma, levando a mensagem de sua partida e seu sorriso de despedida a amigos e familiares que se encontravam distantes fisicamente, porem conectados a ela pelo amor e pela admiração.
Minhas últimas palavras para minha amiga e mestra, em seu estado físico, foram de agradecimento. Agradeci por tudo o que ela fez por mim e por todos nós. Depois dei lhe um beijo e ouvi satisfeito seu simples, porem verdadeiro e sincero “De nada”, acompanhado por um sorriso iluminado, que nunca vou esquecer.
Ao chegar ontem em sua casa, sentando me na cadeira, que estava de frente ao caixão, senti que derrubei algo. Era um Shofar. O mesmo Shofar que me levara anos atrás a sua casa e que abrira para mim e para minha família esta maravilhosa oportunidade de conhecer Tati.
Em seguida abri o livro dos salmos, pedindo ao Eterno que me deparasse com algum salmo digno de recitar naquele momento e para minha felicidade, abri logo um cujo versículo central, recitado quando recebemos um grande líder espiritual, fala de vida eterna ao lado do Criador.
Tati querida, somos eternamente agradecidos. Desejamos que vá em paz, mas como você, que sempre desafiou os limites sabe, estaremos sempre juntos e repetindo o que você sempre dizia a respeito de seu pai, marido e filho, amigos não perdemos nunca.
De seu amigo e aprendiz,
More Ventura.
LUTO
Guimarães Rosa já disse: "A gente não morre. Fica encantado."
Definitivamente, não sei lidar com a morte. Sei que este é o fim de todos, mas alguns seres poderiam ser eternos.
Tatiana Belinky deveria ser uma dessas pessoas. Foi através de um texto de sua autoria que aprendi amar e a respeitar o teatro infantil. As personagens de seus textos, diferente de muitos lixos que tem por aí, são politicamente incorretas, malcriadas, falam o que pensam e seu universo passa longe daquele didatismo horrendo que encontramos em algumas "peças" ditas infantis.
Sem hesitar, liguei para sua residência e falei do meu desejo de conhecê-la pessoalmente. No dia seguinte, estava lá, sentado ao seu lado.
E durante 15 anos (eu a conheci em 1998), Tatiana me proporcionou tantas coisas boas. Foi por sugestão dela que cursei uma faculdade de Arte-Educação, tive o enorme prazer - quando digo enorme, enorme mesmo - de encenar A Sopa de Pedra, Quem Casa Quer Casa - Ou Não?, Os Dois Turrões, Beijo, Não! e João Magriço, espetáculos que me trouxeram muito aprendizado e durante um ano, trabalhamos diariamente num espaço que batizamos com o seu nome. Infelizmente, devido às péssimas instalações, o espaço fechou as portas.
Quantas tardes agradáveis passei ao seu lado, ouvindo suas histórias, falava o mínimo possível, só para ouvi-la. Era maravilhoso... e que memória ela tinha.
Lembro-me da última vez em que nos vimos. Parece que ainda sinto o seu abraço e o seu beijo e vejo aquele sorriso generoso.
- Adorei a sua visita. A-DO-REI!
Foram estas as últimas palavras que ouvi dela.
E eu ainda tinha tantas coisas para lhe dizer, mas hoje me faltam palavras. Ainda não caiu a ficha. Não é verdade, não pode ser verdade. Vou chegar aí e te encontrar refestelada em sua poltrona, mexendo em seu caldeirão e trazendo à tona mais histórias.
Em breve, terminarei de digitar aquelas milhares de páginas mimeografadas que estão comigo e seus scripts de TV não se perderão pelo efeito do tempo.
Estou me sentindo pobre, paupérrimo, pois não terei mais a sua presença física, mas ao mesmo tempo muito rico pelos seus ensinamentos. Nunca deixarei morrer a criança que habita dentro de mim. E isso, Tati, aprendi contigo. E te juro, enquanto eu viver, espalharei suas histórias e o seu nome para os meus alunos e dizer que tive a honra de te conhecer. Conhecer não só a escritora, mas o ser humano Tatiana Belinky.
Pensei que depois da morte de minha mãe, nunca mais fosse sentir uma dor tão forte. Coincidência ou não, minha mãe também morreu num dia 15 e com o dia nublado.
Meus sentimentos para toda a família Belinky de Gouveia.
Não sei como está esse texto, simplesmente estou escrevendo o que estou sentindo, mas não importa. Muito obrigado por tudo, Tião.
Aproveito para colocar aqui um quadro que ganhei de você. Você me ofereceu esses aplausos e agora sou eu quem lhe ofereço. Te amo. BRAVO, TATI. BRAVO
terça-feira, 7 de maio de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
HIGIENE MENTAL
Eu deveria estar de férias, distante do computador e das 10 mil laudas que escrevi este ano, descansando em uma praia, tomando muita água de coco, mas estou tão estimulado, que não consegui parar de escrever. Deixei de escrever por três dias e me senti vazio. E o ócio começou a me deixar deprimido. E estou vivendo um momento tão especial na minha carreira artística, que prefiro continuar mergulhado no trabalho. E nada melhor do que entrar no universo de Tatiana Belinky, que é algo inenarrável. Uma história supera a outra. Na noite seguinte ao lançamento do livro "Tatiana Belinky: uma Janela para o Mundo", do qual fui colaborador, decidi pegar um "livrão" de 700 laudas mimeografadas, referente a seis meses de trabalho - de julho a dezembro de 1959 - que já está comigo há um tempão, para digitá-las e evitar que esse vasto material se perca com a ação do tempo. Faltam apenas 7 obras para terminar de digitar, e, levarei, no máximo, uma semana para concluí-las. Estou higienizando a mente e enriquecendo meu vocabulário executando esta tarefa. E com que prazer eu faço isso!
Encontrei no meio das obras, um roteiro de um programa especial de aniversário do 7º ano do TESP, com informações valiosíssimas. Transformei esse roteiro numa narrativa, mantendo a fidelidade ao roteiro original e sem substituir ou cortar nenhuma palavra.
Segue abaixo, em primeira mão e recém saído do forno, o texto na íntegra que Tatiana escreveu e Júlio Gouveia apresentou, no dia 29 de novembro de 1959, dentro do programa Teatro da Juventude, exibido pela extinta TV Tupi. Não existe nenhuma cópia e nem publicação deste material. Só existe um original, que agora encontra-se aqui, digitado, e evidentemente, com o consentimento da autora Boa leitura!
PROGRAMA DE ANIVERSÁRIO DO TESP
29/11/1959
Hoje, dia 29 de novembro de 1959, o Teatro da Juventude completa o 7º ano de existência. E, por coincidência, a data de aniversário do Teatro da Juventude é também a do aniversário do TESP. As histórias de um e outro são, portanto, como se fossem uma só.
Foi há 11 anos que resolvemos, de brincadeira, fazer teatro para crianças. Era um bom divertimento para a criançada, mas os papais e mamães que faziam o espetáculo, divertiam-se muito mais. Peter Pan foi o primeiro e o sucesso foi tão grande, que a brincadeira começou a se organizar.
Montamos histórias de bichos e contos de fadas quer representávamos em teatros, em escolas, em hospitais e em cinemas de bairros, adaptados para palco, sempre com a colaboração da Secretaria de Educação, durante dois anos. Fizemos mais de uma centena de espetáculos, cada vez para um público diferente. Adquirimos uma experiência enorme sobre a psicologia e as reações do público infantil.
Uma das histórias, Os Três Ursos, com Lúcia Lambertini e David José, uma história de Natal, teve um êxito especial, e, não sei como, nem porque, foi parar na televisão, no Natal de 1951.
Poucos dias depois, também não sei como é que isso aconteceu, iniciávamos um programa permanente, Fábulas Animadas – com Lúcia Lambertini no papel da Cigarra. E poucos dias depois era iniciado outro programa, O Sítio do Picapau Amarelo.
O TESP deixava de ser apenas um hobby, passava a ser um trabalho sério, orientado para a educação do público infantil, numa contribuição importante para a higiene mental. O TESP tinha sede própria onde eram feitos os ensaios e onde se tomava o cafezinho.
Alguns dos antigos elementos, fundadores TESP, ainda hoje continuam conosco: Lúcia Lambertini, Wilma Camargo, Paulo Baso, João Alípio Barros e Suzy Arruda, que começou como Onça e acabou como vovó Benta, do Sítio do Picapau Amarelo.
No dia 29 de novembro de 1949 era apresentado o primeiro espetáculo do Teatro da Juventude. A estreia foi com A Bela Adormecida. Naquele tempo, o programa chamava-se Era uma Vez... e era orientado para o público infantil. Gradativamente, porém, fomos percebendo que, desde que a nossa orientação era educacional, a mensagem deveria ser dirigida a todas as idades. Idade é, antes de mais nada, um estado de espírito, e sempre é tempo de aprender alguma coisa sobre o bem e o mal, o certo e o errado. E logo com Coppelia, o nome do programa foi trocado para Teatro da Juventude. A Coppelia, seguiu-se uma série de espetáculos realmente muito bonitos: A Roupa Nova do Imperador e O Rouxinol do Imperador da China.
Alternávamos sempre os gêneros – ora mais infantil, ora mais juvenil, como o Mata Sete, com Paulo Bosco e a famosa Balada do Rei João e o Abade de Canterbury. As histórias clássicas da literatura infanto-juvenil de todos os países foram apresentadas e. não podia faltar no Teatro da Juventude, o nosso Monteiro Lobato, com as histórias da Emília, Perralt, Andersen, os Irmãos Grimm... Todos foram trazidos para o vídeo.
A Bela e a Fera, uma das mais lindas histórias da América Central, marcou a estreia de Adélia Vitória que, com Dionísio Azevedo, viveram um dos mais comoventes espetáculos, e um dos mais difíceis realizados pelo TESP. Foi uma rara felicidade, em todos os aspectos e a caracterização da Fera, realizada por Barry, até hoje o maquiador do TESP, foi perfeita. A transformação da Fera, quando ela volta a ser o Principe que havia sido encantado por uma fada má, foi tão bem executada, que uma telespectadora chegou a telefonar, perguntando como é que era possível...
Incidentes no Teatro da Juventude é que nunca faltaram. Numa história chamada Magnólia, havia uma vaca que devia ser constantemente transportada de um ambiente para outro. Acontece, porém, que uma das portas era menor que o diâmetro da vaca. A vaca ficou entalada e o cenário veio abaixo.
Com muita frequência, tivemos bichos que sempre deram muito trabalho desde elefantes, cabras, cavalos, cães e gatos. Numa história de Natal, Paulo Basco que interpretava um suave velhinho, ficou com o pé preso embaixo da pata de um burrinho e nem por isso deixou de fazer suavemente o papel.
De vez em quando, o Teatro da Juventude apresenta histórias em série. Tom Sawyer foi a primeira. David José e Verinha Darcy eram bem crianças. Esta história foi reapresentada dois anos mais tarde sempre com o mesmo sucesso. As crianças crescem, novas crianças nascem, aquelas que eram ainda pequenas para apreciar uma história chegam depois à idade de entender e gostar...
E poucas histórias são tão ricas em ensinamentos para a formação do caráter como Tom Sawyer. É por isso que o Teatro da Juventude repete, periódicamente, alguns espetáculos. É para que novas crianças possam se beneficiar da mensagem contida em certas obras-primas da literatura mundial.
Heidi, ainda com Verinha Darcy e David José, foi outra série bonita e comovente, repetida também, tempos depois, pelo TESP, mas em outro horário.
As histórias de fadas, as histórias românticas e sentimentais como Labakan, o Alfaiate, onde tivemos uma das primeiras interpretações de Hernê Lebon e Felipe Wagner eram alternadas sempre com a literatura brasileira. A contribuição do Teatro da Juventude à divulgação dos autores nacionais é uma das maiores da nossa televisão.
Uma das mais importantes realizações do Teatro da Juventude foi sua participação nos festejos oficiais do IV Centenário de São Paulo, com a apresentação de Emílio Ribas, Herói de São Paulo, num espetáculo de duas horas e meia de duração. A viúva de Emílio Ribas que forneceu, ela mesma, alguns dados sobre a personalidade do ilustre paulista, exemplo de uma vida dedicada à ciência, ao trabalho e à sociedade.
Exemplo de dedicação, de caráter e honestidade, nunca faltaram no Teatro da Juventude. Uma história verídica acontecida em Belo Horizonte, Uma História de Diamantes foi teatralizada no Teatro da Juventude, apenas cinco dias depois de publicado o caso nos jornais. Era a história de dois rapazes honestos que perdem um pacotinho com alguns milhares de contos de diamantes e um terceiro homem honesto que encontra e devolve o pacotinho. Quem fez isso foi Dalmo Ferreira, que até hoje trabalha como Diretor de Estúdio do TESP.
Com inúmeras inovações técnicas e artísticas, o Teatro da Juventude tem contribuído para o desenvolvimento da televisão. Cristóvão Colombo foi uma experiência interessante. Era difícil dar em poucas cenas uma ideia exata do caráter e da personalidade tão complexa e, por vezes, contraditória, do ilustre descobridor da América. Suas relações com os reis de Castela, com os homens de seus navios, sua ambição desmedida e seus planos fantásticos, aliado tudo isso a uma nobreza de coração, tornavam-no incompreendido para àqueles que com ele conviviam, e, certamente, incompreendido também para os telespectadores. Era necessário “explicar” Cristóvão Colombo. E foi então inventada uma nova técnica de Narração. O ator (Felipe Wagner) a certa altura parava e exclamava: “Não posso continuar, não estou entendendo.” A interrupção era de maneira a parecer realmente uma interrupção real. Então entrava o Narrador, perguntava o que é que ele, ator, não estava entendendo, e dava uma explicação mais ampla sobre a personagem. Logo os telespectadores percebiam que aquilo era planejado, e, acompanhavam atentamente a explicação. Uma vez explicado a personagem, o espetáculo continuava agora de uma forma mais lógica e mais convincente, e, o que é melhor, dando aos telespectadores uma imagem mais fiel da figura de Cristóvão Colombo.
Todas as novas ideias de cenografia criadas por Alexandre foram executadas pela primeira vez no Teatro da Juventude. O sistema de cenário fechado e o sistema de cenário circular com câmera central foram experimentadas diversas vezes com grande sucesso e os sistemas foram utilizados posteriormente também em outros canais.
O TESP preenche assim sua dupla função como Teatro-Escola que é: Escola para o telespectador e Escola para os realizadores. Sempre pesquisando e buscando novas formas de fazer televisão, o Teatro da Juventude apresentou certa vez, “teatro” sem teatro, isto é, sem atores: com os desenhos originais de Busch e versos de Olavo Bilac. Fizemos Juca e Chico.
Além dessas experiências, outras foram realizadas no Teatro da Juventude. Com iluminação, com câmeras, trucagens de toda sorte, experiências de sons, dublagens (não de sons), mas de atores, inversões de imagem, experiências com maquiagem e com cores, enfim, o Teatro da Juventude tem sido campo aberto para quem quer que queira experimentar alguma coisa nova em matéria de televisão.
Foi há três anos que o Teatro da Juventude passou a receber o patrocínio de uma das mais simpáticas empresas comerciais e industriais de São Paulo – a Phillipe do Brasil.
Um dos orgulhos do Teatro da Juventude é a realização das séries bíblicas, O Filho Pródigo, com José Serber, Enio Gonçalves, Rafael Goombeck e Hernê Lebon, culminando na cena do reencontro do Filho Pródigo... “eis que este filho estava perdido e eu o encontrei... O Senhor seja louvado...”
O Livro de Ester, do Velho Testamento, outra série que, pela sua importância e dignidade foi realizada três vezes no Teatro da Juventude, sempre com Felipe Wagner, Hernê Lebon e Adélia Victoria nos papeis principais.
José do Egito, outra série bíblica, foi feita duas vezes nestes seis anos: a primeira, com Luciano Maurício, ator que deixou o video há tempos e que até hoje é lembrado com saudade por muitos telespectadores e recentemente com Henrique Martins. O papel do velho patriarca, Jacó, o Israel, foi, nas duas vezes, vivido por José Serber.
Os Dez Mandamentos! Esta é a série bíblica de que mais se orgulha o Teatro da Juventude. Com dezenas de atores, imensas cenas de multidão com bailados, cenas dramáticas e cenas suaves, Os Dez Mandamentos foi uma brilhante demonstração do quanto se pode realizar, com tão poucos recursos dentro de um estúdio de televisão.
Mas o que caracteriza a nossa orientação é a variedade de gêneros. Depois de um espetáculo heróico, vem um romântico, como a Fada do Ceará. Era uma história onde a força do amor é maior que a força dos poderes ocultos, maior até que as forças mágicas e acaba por vencer... pois a mágica do amor é a maior de todas as mágicas e encantamentos.
Educar divertindo e divertir educando...
Tatiana Belinky e Júlio Gouveia
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
"E ASSIM TERMINOU A HISTÓRIA...
...entrou por uma porta, saiu pela outra. E quem quiser, que conte outra."
ou
"Mas isso é uma outra história, que fica para uma outra vez"
Quem não ouviu esses encerramentos milhares de vezes?
Pois é... quem criou esses "fechamentos" clássicos, foi Tatiana Belinky.
Todos os programas que eles apresentavam na TV Tupi de 1951 a 1964, eram feitos ao vivo. O programa começava numa estante de livros. O narrador (Júlio Gouveia) dirigia-se até a estante, pegava um livro, informava o título da obra, o nome do autor, lia as linhas iniciais, e só então, a câmera passava para a história propriamente dita. Ao término da história, o olho da câmera voltava para o Narrador, que encerrava com "Entrou por uma porta...", se a história era completa, ou "Mas isso é uma outra história...", quando o programa tinha continuidade, como o Sítio do Picapau Amarelo e nas minisséries de aproximadamente 80 capítulos, entre elas: Heidi, O Jardim Secreto, Pollyana, Angélica, entre outras.
Infelizmente, não era nascido na época que isso aconteceu - gostaria de ser. Mas tive a sorte de conviver, pessoalmente e profissionalmente, com Tatiana, que não só me relatou diversas histórias, como também confiou-me seus textos teatrais e roteiros televisivos. É material que não acaba mais.
Em 2006, numa visita que fiz à Tati, ela me pediu para digitar os seus textos, porque uma editora queria publicá-los. E aí que a anta aqui percebeu, que ainda não havia um livro que reunissem todas as obras teatrais dela. Grande parte dos seus textos foram publicados na revista Teatro da Juventude. Eu possuía a coleção completa (1995-2002) e alguns exemplares da primeira publicação (1965-1972), e uma dúzia de textos datilografados, que não tinham sido publicados. Iniciei o trabalho. Fui à procura de mais textos em bibliotecas e, paralelamente, a isso, digitava suas obras.
Faltava pouco para acabar de digitar, quando um texto que encontrei na Teatro da Juventude, me chamou a atenção. Era assinado por Carlos Ney, e achei a escrita muito próxima a de Tatiana. E, em outra visita, perguntei:
- Tati, quem é Carlos Ney?
E ela, respondeu:
- Sou eu!
Fiquei em estado de choque. E fui procurar mais textos de Carlos Ney ao chegar em casa. E para a minha surpresa, eu tinha em minha biblioteca, muito mais textos da Tatiana do que imaginava. E o trabalho de digitação, que estava praticamente no fim, retrocedeu para a metade. E, pouco a pouco, fui descobrindo os heterônimos de Tatiana, até concluir a digitalização completa de suas obras. Acredito que encontrarei mais coisa ainda.
Seis anos depois que concluí o meu trabalho, a editora Perspectiva lançou o livro. No livro Tatiana Belinky: Uma Janela para o Mundo só foram publicados 18 obras. Agora é torcer para que os editores se interessem em publicar o volume 2, porque material é o que não falta.
Estou mergulhado agora nos roteiros para a televisão.Esses levarão mais tempo para digitar, porque encontram-se encadernados em grossos volumes - cada volume, com 600 laudas, no mínimo - são cópias de mimeógrafo (naquela época não existia xerox), e as folhas estão, praticamente, se esfarelando. É preciso ter o máximo de cuidado no manuseio desse material.
Estou relendo muita coisa que já li, e, lendo também, o que ainda não li. E leio em voz alta. É tão prazeroso dizer os seus textos, é tão gostoso mergulhar no seu universo. Apesar de serem escritos na década de 50, são atemporais e se adequam muito bem aos dias de hoje. Aliás, são melhores do que os textos de agora. Sem papas na língua e sem medo da censura. E é isso que tornam essas obras especiais.
Palavra de honra, Tati. Não vou deixar que esses textos se percam devido a ação do tempo. E me sinto honrado de fazer esse trabalho pra você.
Quanto ao desfecho... bem... isso é uma outra história, que fica para uma outra vez.
domingo, 9 de dezembro de 2012
UMA JANELA PARA O MUNDO
Ontem foi um dia muito emocionante para mim. Finalmente, depois de alguns anos de trabalho como colaborador de Malu Pupo e Karin Mellone, digitando os textos datilografados, o livro Tatiana Belinky: Uma Janela para o Mundo já se encontra nas prateleiras das livrarias. O lançamento aconteceu na noite de ontem, 7 de dezembro, na Livraria da Vila - Lorena e contou com a ilustre presença de Tatiana Belinky. Tinha certeza que seria uma noite maravilhosa, mas superou as minhas expectativas. Foi muito mais do que uma noite maravilhosa. Foi mágica.
A Livraria da Vila - Lorena, é uma das livrarias mais bonitas e agradáveis que já conheci. Tem livros, CDs e DVDs por toda a parte, exatamente como gostaria que fosse a minha casa. Com estantes ocupando todas as paredes disponíveis e com livros do chão ao teto. Os 3 mil volumes que tenho, cuidadosamente guardados nas estantes, é um número pequeno, perto do que pretendo ter.
Estiveram presentes no evento, além de Tatiana, Malu Pupo, Karin Mellone, Ricardo Gouveia, Cláudia Dalla Verde, Zeca Capellini, Gabriela Rabelo, Cibele Troyano, Jacó Guinsburg, José Eduardo Vendramini - pessoas a quem tive a sorte de conviver, seja nos palcos, na sala de aula ou na vida, e que sempre me incentivaram e me estimularam a seguir adiante, nesse caminho maluco que é a vida artística. E, sem me esquecer, é claro, das presenças de Emerson Grotti (que não via desde 2009), Luciana Belinky (bisneta de Tati e por quem tenho um carinho imenso), e da pessoa mais importante da minha vida, meu filho Eddie.
Tatiana tem centenas de textos teatrais escritos, e somente agora suas obras foram reunidas em um único volume. Parabenizo a iniciativa da editora Perspectiva através de Jacó Guinsburg, de Malu Pupo e Karin Mellone. E sinto-me lisonjeado por ser um colaborador deste projeto.
Segue alguns clicks do evento.
Luciana e Eddie
(ou Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, quando jovens?)
(ou Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, quando jovens?)
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