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quinta-feira, 24 de julho de 2014

ARIANO SUASSUNA

Estou muito triste. Esta última semana foi terrível. Morreram três dos meus escritores favoritos: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e agora o Ariano Suassuna. 
Não consigo lidar com perdas. Não mesmo. Sei que as obras destes grandes escritores atravessarão os seculos, mas não consigo aceitar que esses grandes homens, não estarão mais aqui para nos presentear, não só com seus escritos, mas com seus exemplos de vida.
Grandes perdas! Estamos ficando cada vez mais pobres!

domingo, 20 de julho de 2014

SOLUÇÕES RADICAIS

Parece que todo mundo saiu da cidade no feriadão, de forma que a rua está quase silenciosa, vazia de carros e mesmo de passantes, o desfile feminino é apenas uma sombra do costumeiro e houve quem temesse falta de quórum no boteco. Seus frequentadores mais fiéis, contudo, consideram meio vulgar esse negócio de viajar no feriadão, em vez de ficar, sensatamente, no boteco de todo fim de semana. E, assim, o meio-dia chegou para encontrar a postos praticamente a freguesia habitual completa, inclusive o comandante Borges, sorridente e afável, exibindo um surpreendente bom humor, depois que a bateria de sua moderníssima bicicleta elétrica pifou. Mas o Inimigo detesta a paz e a harmonia e, com suas maquinações diabólicas, está sempre montando armadilhas para atiçar a discórdia. Assim se deu, lamentavelmente, quando o comandante resolveu colaborar com a tradição de cultura da mesa, partilhando algo que tinha aprendido recentemente. 
 - Vocês sabem o que é um hipocorístico? – indagou ele.
– Eu mesmo não sabia, só fui aprender ontem. Acho que tem mais algumas coisas, mas o hipocorístico de que eu estou falando é quando se chama alguém por um apelido derivado do nome dessa pessoa. Por exemplo, Beto, em vez de Roberto, Chico em vez de Francisco, Pedrinho, em vez de…
- Entendi. Então o seu hipocorístico seria Borginho.
- É a mãe! Me respeite, Borginho não! Borginho não! Deboche não! Como é o nome da senhora sua mãe? Ela…
- Calma, comandante, olha a pressão. Não faça isso, comandante! 
Custou um pouco, mas ele pareceu ter-se acalmado e sentou-se de novo em frente a seu chope, alisando a cabeça com o olhar distante. O raro episódio de bom humor, entretanto, tinha ido embora para não mais tornar, o que se manifestaria logo em seguida, quando alguém comentou os prejuízos do comércio, com tantos feriados e feriadões.
- É isso mesmo! – esbravejou ele. – O feriadão é patrimônio do nosso povo! É melhor irmos logo nos acostumando. O nosso ideal, como povo e como indivíduos, é não trabalhar nunca! Esse é o nosso grande ideal! Eu tenho um sobrinho pequeno que, quando eu perguntei o que ele queria ser, disse que, quando crescesse, queria ser aposentado. O ideal é este, nós ainda chegamos lá. Ninguém no trabalho, todo mundo na praia, na internet ou no baile funk!
- Mas, comandante, alguém tem que trabalhar.
- É o que todo mundo pensa, menos o brasileiro. Querer o contrário é dar murro em ponta de faca. A solução para o Brasil só virá quando nenhum brasileiro mais trabalhar.
- Mas isso não seria possível.
- Claro que seria, aqui tudo é possível.
- Mas quem faria o trabalho necessário para a sobrevivência de todos?
- Parece que vocês não moram no Brasil. Chineses! Esse governo vai contratar chineses para fazer o trabalho pela gente. Daqui a pouco um marqueteiro do governo descobre isto e iniciaremos a importação de chineses. Enche isto aqui de chinês, chinês é ótimo para trabalhar sem reclamar, é uma tradição milenar. Vai ser o programa Mais Trabalhadores. O cidadão declara que não quer trabalhar, se cadastra no Ministério do Ócio e recebe tudo o que precisa, em forma de salários e bolsas, além de um personal Chinese.
- E de onde sairia o dinheiro para custear esses salários e bolsas?
- Dos impostos pagos pelos chineses, é claro. Você pensa que o chinês não vai ter desconto na folha? 
- Ha-ha, claro que o senhor está brincando, comandante.
- Brincando? Brincando estão eles! Eles é que brincam! E na primeira classe, enquanto o povo vai no bagageiro! Em tudo quanto é canto, você vê uma piadinha deles, eles nem se preocupam em renovar o estoque, como no caso da piadinha do dólar.
- Essa eu acho que não conheço.
- Conhece, sim, é que ninguém mais presta atenção no que eles dizem. O que é acontece, quando o dólar sobe?
- Não sei bem, não sou economista.
- Nem precisa ser, é até melhor que não seja. Eu lhe digo o que é que acontece, quando o dólar sobe. Vem um porreta de lá e explica que a notícia é ótima, porque nossas exportações vão vender mais e se escoar melhor. Daí a algum tempo, o dólar desce e o mesmo porreta aparece para dizer que a notícia é excelente, porque facilita a importação de bens de capital pela nossa indústria. Eles querem o quê? Eles querem provar que eu sou burro e otário! Eles querem é me matar, isto é o que eles querem! E eu não posso me defender, porque eles desarmaram todo mundo, só quem pode ter arma é traficante e pivete. É pivete, o nome certo é pivete, não me venha com essa cara de Estatuto da Criança e do Adolescente, criança e adolescente são outra coisa! Qualquer pivete pode aceitar R$ 50 de pagamento para invadir sua casa e matar você e toda a sua família, para depois tudo ficar por isso mesmo! 
- Calma, recobre a calma, comandante, olhe a pressão.
- Eu não sossego enquanto eles não criarem o bolsa Miami, para estender a todos os brasileiros a realização do nosso maior objetivo de vida, que é fazer compras em Miami. Viva o Ministério do Ócio, da Preguiça e da Moleza! O futuro é promissor e ainda veremos o Brasil de nossos sonhos, em que nenhum de nós trabalhará – um Brasil finalmente feliz, se bem que com um grande superávit de chineses. Eu só posso clamar por guilhotina, guilhotina!

JOÃO UBALDO RIBEIRO

quinta-feira, 10 de julho de 2014

NORBERTO DE HOLANDA CAVALCANTI, VELHO NÔ, QUE RESIDIU NA CIDADE DE CARUARU, PERNAMBUCO, EM 1927

— ESTÁS aí, filho? — perguntou o velho. 
O rapazinho não respondeu. 
Deserto, sob a madrugada, o Largo da Cadeia; nenhuma janela acesa, ruído nenhum, apenas o vento frio — carregado de resina e orvalho — agitando a folhagem dos fictís. 
— Filho? Por que não fala com teu velho pai? 
Sentado rente à parede, o cachorro ao lado, dormindo, Almiro disse, por fim: 
— Estou aqui. Quê é que o senhor quer? 
A janela gradeada da prisão ficava metro e meio acima da cabeça de Almiro. Mas a voz do velho parecia vir de longe: 
— Tua mãe já sabe? 
— Disse ao senhor há pouco que ela sabe — respondeu o rapaz, com certa má vontade. 
— Ficou danada? 
Desta vez não teve resposta. Insistiu: 
— Sei que amanhã a velha vai dizer muitas e boas. O inferno de sempre. Talvez, até, me dê umas correadas, como aconteceu a semana passada. Não quero nem pensar. 
Tudo acontecera por causa da rapariga Maria Mil e Duzentos. Gente muita na Pensão Riso da Noite: boêmios, funcionários da Great Western, caixeiros da Rua do Comércio, as mais cobiçadas rameiras da Rua das Mágoas — Nila Barra Branca, Joaquina Pão Doce, Júlia Peixe Boi, negra Filó, Zefa Romana, Lica Maleira, Amélia Taquara. Cerveja à vontade, todo mundo dançando ao som da sanfona de Natalício. Foi quando o clarinetista da Banda Musical Nova Euterpe, Eleutério de Souza, chegou acompanhado da mulata Maria Mil e Duzentos. Vendo-a de vestido vermelho com bolinhas brancas, laço de fita na cabeça, cheirando a extrato comprado na feira, Norberto de Holanda Cavalcanti — mais conhecido como velho Nô, — já embriagado àquela hora, deu-lhe uma palmada na bunda: 
— Estás um pirão, menina. 
O clarinetista não gostou: 
— Mulher que está comigo não serve de debique para ninguém. 
O velho, alto e gordo, ergueu-se, garrafa na mão: 
— Se é homem, venha. 
Armou-se a confusão, com mulheres gritando, cadeiras derrubadas, o sanfoneiro Natalício se retirando às pressas para a cozinha; o pederasta Pedro Contente, garçom e alcoviteiro, agarrado ao braço do boêmio Zuzinha, dando gritinhos: 
— Segurem o velho! Segurem o velho! 
Chamado às pressas na Pensão de Catarina Trombone, na casa ao lado, onde costumava fazer ponto todas as noites de sábado, cabo Queiroz deu voz de prisão ao velho Nó: 
— Me acompanhe. 
Naquele mês de dezembro, era a terceira vez que Norberto de Holanda Cavalcanti pegava cadeia. Alguém correra à Lagoa da Porta para avisar à mulher e ao filho do velho. Arrastando a perna direita martirizada pelo reumatismo, Dona apareceu à janela, na mão esquerda o candeeiro de querosene: 
— Quem é? 
— Seu Nô foi preso inda agorinha mesmo — informou o desconhecido. — Armou uma confusão dos diabos lá na Rua das Mágoas. 
O rosto de Almiro surgiu por trás da cabeça da mãe, como uma aparição que subisse de dentro da luz do candeeiro: 
— Vou falar com o delegado. 
Vestiu-se correndo e, acompanhado de perto pelo cachorro Nero, atravessou a linha férrea (a máquina do trem cargueiro que, de madrugada, rumaria para o sertão, fazia manobra no giradouro), seguiu pela Rua da Matriz em direção à Cadeia Pública, no Rosário Velho. 
O delegado não estava e o cabo Queiroz o recebeu com os mesmos desaforos de outras vezes: 
— Seu pai não toma vergonha, é um cabra safado, bêbado descarado que vive por aí plantando desordens. Qualquer dia destes deixo ele mofar um mês no xilindró. Pra tomar tino de gente. 
— Cabo — começou Almiro, que tinha quinze anos, a voz chorosa. — Solte o pobre do velho! Mãe ficou em casa, chorando. 
— Quero conversa não; só deixo ele ir quando amanhecer o dia. Almiro sabia que seria inútil qualquer pedido. 
Foi sentar-se na calçada do oitão, ao pé da janela da cela onde, tinha certeza, o pai curtia sua cachaça. Como se adivinhasse a proximidade de Almiro — não era sempre assim que acontecia? — o velho Nô, após um acesso de tosse, gritou: 
— Estás aí, filho? 
O céu começava a clarear para os lados do rio Ipojuca. Era na cidade de Caruaru, no ano de 1927. Frio, apesar de dezembro. Carregados de caçuás. cavalos e jegues surgiram no começo da rua a caminho da feira semanal. Os homens montados nas garupas; as mulheres a pé, cabeças e ombros envoltos em grossos xales de lã. Cheiro de mato. Primeiros pássaros riscando o céu. 
— Filho? 
Cabeça curvada sobre os braços apoiados nos joelhos, Almiro abriu os olhos, resmungou qualquer coisa e afastou o cachorro que dormia em cima de seus pés. 
— Filho? Ainda estás aí? 
O rapaz estava com raiva. Quando seu pai tomaria jeito na vida? Quando deixaria de se meter com raparigas e cachaça, jogo do bicho e briga de galo? Quando arranjaria uma ocupação decente? Quem sustentava a casa era a mãe, pobre coitada, varada de reumatismo e, apesar disso, de pé o dia inteiro, fazendo a comida, lavando roupa para as famílias da Rua da Matriz, criando galinhas para vender nas feiras de sábado. 
— Filho? 
Almiro, de repente, teve uma pena enorme do pai. Perdoava-lhe os erros. Sofria pela sua prisão naquela cela fria de chão de cimento, paredes úmidas, sem um colchão sequer para repousar o corpo velho e gasto pelas farras. 
— Que é, pai? 
— Ainda bem que você está aí, filho. Pensei que tivesse ido embora, me deixando sozinho. Tossiu: — Tenho tanto medo de ficar só! 
— Estou aqui, pai. Espero o senhor ser solto. 
— Obrigado filho, você é um bom menino. Ao cabo de uns cinco minutos, tornou a falar: — E sua mãe, hein? Que é que aquela peste velha vai me dizer? Sofro só de pensar nos desaforos que vou ouvir. Mas note bem: desta vez, se ela vier com aquela história de me dar correadas, vou reagir. Arrebento aquele corpo já quebrado pelo reumatismo. 
Uma semana antes, somente porque surrupiara alguns tostões do pires colocado diante do santuário da casa, Dona partira para cima dele de correia e palavrões. De nada adiantara dizer à mulher que apenas tomara emprestado a São José um dinheirinho à-toa. De nada. Ao mesmo tempo em que lhe metia correadas, injuriava-o aos gritos: 
— Velho safado, ladrão de santo, excomungado. Pra completar tanta miséria, só falta mesmo tu roubar cego de feira, desgraçado. 
Gênio de cão daquela mulher. Por uma coisinha de nada, virava fera. E dizer-se que, em outros tempos — nos bons tempos da Rua da Perua, em Belo Jardim — fora bonita, a mais bonita rapariga da zona, quando a conhecera e a amara com todo o amor que seu coração podia dar a alguém. Nô escarrou no chão. Metendo a mão no bolso, não encontrou cigarro. Por que não amanhecia logo? Estava cansado, todo o corpo era uma dor só. Ainda por cima, aquela secura na goela, vontade desesperada de virar um líquido qualquer, um trago de aguardente, na pior das hipóteses um coco d'água. 
— Filho? 
Almiro pegara no sono novamente. Nô recordava o filho, pequenino, brincando na rua. Tinha-lhe grande amor e sabia que ele o amava também, apesar de tudo. É verdade que não o via muito, pois estava sempre viajando de cidade em cidade, um dia em Pesqueira, outro em Rio Branco, sem pouso certo, arranjando e perdendo emprego, mas, onde estivesse, metido em bebedeiras com amigos feitos às pressas, irremediavelmente preso a qualquer rabo-de-saia que lhe surgisse pela frente. Vez ou outra aparecia em Belo Jardim, com os braços carregados de presentes para Dona e Almiro. Botava o menino no colo, falava-lhe dos lugares por onde havia andado, das brigas em que se metera, exagerando muitos nos detalhes, menos pelo desejo de contar vantagem que pela necessidade interior de colorir cada episódio com os recursos da imaginação. 
Dois ou três dias depois, no máximo, dizia a Dona que precisava partir. 
— Me prometeram uma boa colocação em Vitória de Santo Antão, mulher — falava. Embora soubesse que Dona não acreditava, partia satisfeito, prometendo voltar o mais breve possível, pois já estava em tempo de pensar na educação do menino. 
Numa dessas vindas a Belo Jardim, Almiro, que já estava com dez anos, perguntou a Norberto de Holanda Cavalcanti: 
— Pai, por que os meninos da rua me chamam de filho de rapariga e nunca querem brincar comigo? 
Nô não respondeu logo. Subira-lhe o sangue à cabeça e teve um começo de tontura. Respirou fundo e afagou a cabeça do filho, dizendo-lhe, entre lágrimas que procurava esconder: 
— É porque eles têm inveja de você, Almiro. Escute o que vou dizer, guarde isso para sempre: rapariga é a coisa mais linda do mundo. 
Em 1927, obrigado a regressar a Belo Jardim e à mulher — uma febrezinha noturna vinha consumindo seu organismo havia já vinte dias seguidos — lembrou-se da pergunta que o filho lhe fizera dois anos antes e, após longa conversa com Dona, decidiram os dois mudarem-se para Caruaru, cidade mais adiantada, com melhores possibilidades de vida, onde ninguém os conhecia, aí podendo levar existência sossegada, sem que a maldade humana os fizesse lembrar o passado. Já estava impaciente: — Filho? Almiro despertou com o trote de um cavalo em disparada na direção da Rua do Comércio. Abriu os olhos mas tornou a fechá-los por causa da claridade. Amanhecera e o largo começava a movimentar-se. — Filho? — Sim, pai. — Não está na hora de me soltarem? 
— Sei não, pai; quem sabe é o cabo Queiroz. 
— Então, vá chamar a atenção desse desgraçado. Vá logo. 
Almiro rodeou o prédio, subiu a pequena escada de tijolos que dava para o compartimento principal da cadeia. Sentado num tamborete e recostado na parede, pernas estendidas sobre uma mesa, papéis desarrumados, tinteiro sem tinta e caneta sem pena, cabo Queiroz roncava. 
— Cabo? — chamou, timidamente, o rapaz. 
O homem virou-se, mas não abriu os olhos. 
— Cabo... 
Primeiro, espreguiçou-se; depois coçou a cabeça e fez uma careta. Por fim: 
— Que diabo você quer, menino?
— Pai, seu cabo... 
— Que tem o peste do velho? 
— Solte o pobre, seu cabo. 
Cabo Queiroz bocejou longamente. Erguendo-se, pegou o coco, meteu-o na jarra para apanhar a água, que bebeu, deixando-a escorrer pelo queixo, a molhar-lhe o paletó. 
— Está bem. Vou soltar aquele gôta-serena. Mas, veja lá: da próxima vez, ele vai apodrecer aqui dentro. Em seguida, foi abrir a cela: — Dê o fora, velho; suma da minha frente. 
Gordo, alto, barba enorme, branca, cobrindo todo o rosto, cabelos em desalinho, Norberto de Holanda Cavalcanti — velho Nô para todos — deixou o cubículo, esfregando as mãos, boca escancarada num sorriso sem dentes: 
— Com os seiscentos, já estava com a bunda doendo. Êta chãozinho duro e frio. 
— Vá-se logo — gritou cabo Queiroz. 
Almiro agarrou o velho Nô, carinhosamente, pelo braço. 
— Vamos, pai. 
Já na rua, Nô parou um instante para aspirar o ar gostoso da manhã, viu os ficus benjamins iluminados pelo sol nascente, as casas com as janelas abertas, gente, cavalos passando. 
— Manhã bonita, filho! 
E, alisando os cabelos alourados de Almiro: 
— Vamos dar uma chegadinha até ali na bodega do Viana. Estou doido por um trago. 


A LAGOA DAPORTA — depois da linha férrea — casa de porta e janela, salinha de frente, pobre, porém bem arranjada, com quatro tamboretes, uma cadeira de balanço, aparador coberto com pano rendado, dois jarros de barros comprados na feira, cheios de flores de papel, retratos de santos nas paredes, cortina de chita na janela, a gaiola do azulão suspensa da esquadria. Do terreiro se avistava o Monte do Bom Jesus, bem como a igrejinha, o mirante e o cruzeiro. Voltada para esse mirante, ao cair da tarde, Dona — cinqüenta e dois anos, embora parecendo uma velha e por velha Dana sendo chamada — fazia suas orações e pedia a Deus pelo filho Almiro, cujo pai era um mau exemplo. Nô não tinha mais jeito, sabia ela, como jeito não tinha mais aquele reumatismo — herança dos homens — que dia a dia lhe consumia as carnes e as últimas energias. 
Além do mirante, a cêrca-viva dos aveloses seguindo a linha do trem, a cúpula de alguns túmulos do cemitério de São Roque, o pântano que gerava as muriçocas. Finalmente, as outras casinhas pobres da rua, casas mais pobres que a sua, de chão batido, habitadas por criaturas envelhecidas antes de tempo e crianças barrigudas, catarro escorrendo do nariz, rosto sempre sujo, assustadas. Dezembro passara com algumas chuvas fortes anunciadoras de bom inverno. Em janeiro, exatamente no dia 18, quando Dona aniversariava, Nô apareceu em casa com um presente. Deixou-o escondido numa moita à margem da cacimba, nos fundos do terreiro e, em seguida, foi procurar a mulher para anunciar a boa nova: 
— Não me esqueci dos seus anos, minha velha. E sabe o que comprei? Fez uma pausa, ante o espanto da velha Dona: — Quero que adivinhe. Só lhe adianto uma coisa; é presente que vai trazer fortuna pra todos nós, principalmente para você e o menino, pois sou homem sem vaidades, nada quero para mim, apenas para os meus. 
Voltou ao terreiro e apanhou o embrulho. Ao lado de Almiro, a mulher continuava sem entender. 
— Veja só — disse ele, desmanchando o embrulho. — Um galo de briga! Vamos ficar ricos com este bichinho. 
Dona encostou-se à parede, com medo de perder os sentidos; Almiro afastou-se para o interior da casa adivinhando o que iria acontecer. 
— Que tal, minha velha? — perguntou Nó. Já sentia a tempestade no ar: — Não é mesmo uma lindeza?
Refeita do golpe, à primeira coisa que Dona fez foi correr até o quarto, indo direto ao baú de couro onde guardava seus pertences mais queridos. Abriu-o, apressadamente, procurando, entre os retalhos de chitas, a caixinha de madeira, esconderijo de suas economias. Achou-a e destampou-a: vazia, como previra. Quando voltou à sala, Noberto de Holanda Cavalcanti havia desaparecido. Dona correu ao terreiro. Ele também ali não estava. O galo de briga, porém, ciscava o chão. Vermelho, com manchas pretas e brancas, porte bonito, já parecia senhor de seus novos domínios. Senhor, sobretudo, das vinte e tantas galinhas que, à sua chegada, se alvoraçaram. 
Só de madrugada Nô retornou a casa. Timidamente, bateu à janela: 
— Sou eu, minha velha. Não tendo resposta, tornou a bater: — Abra, Nó está morto de cansaço. Abra logo, velha! 
Quem apareceu foi Almiro que, candeeiro na mão, olhos pesados de sono, abriu a porta. 
— Entro não, meu filho! E, baixando a voz: — E ela? Muito braba, ainda? 
— Entre logo, pai; estou caindo de sono. 
Olhando por cima dos ombros do rapaz, o velho passou a sala em revista. Depois, puxou ainda o filho pelo braço: 
— Venha aqui fora um instante; quero ter uma conversinha com você. 
Almiro relutou, mas acabou saindo. Dirigiram-se os dois para uma pedra que havia defronte a casa. Nô deu um suspiro, coçou a barba, tossiu. 
— Sabe, meu filho: a vida é uma coisa difícil. 
Em torno, o cricri dos grilos. Um cachorro ladrou num quintal próximo. O cruzeiro do Bom Jesus, lá adiante, todo iluminado. 
— Muito difícil — insistiu. 
De repente, mudando de assunto: 
— Quer saber a verdade, menino? Estou com um medo danado de entrar em casa. 
Ante o silêncio constrangedor de Almiro: 
— Seja amigo de seu pai e fale a verdade: a velha levou a correia pro quarto? Não minta. Um homem nunca deve mentir. Num sussurro: — Pelo menos ao seu pai. 
Levou a mão ao bolso, onde guardava um vidro de xarope — que substituíra por aguardente — e tomou um gole. 
— Ando com uma tosse dos seiscentos. 
Nero veio para o terreiro, deitando-se aos pés de Almiro. 
— Pai — pediu o rapaz — não agüento mais de sono, vamos entrar! 
Nô deu um pigarro: 
— Um pouquinho só, rapaz, deixa primeiro tua mãe agarrar no sono. 
Após um silêncio, descansando a mão no joelho do filho: 
— Um conselho que te dou: nunca queiras saber de mulher. Todas elas são iguais; martirizam a vida de um homem. E é sempre uma despesa a mais. Mulheres foram feitas para jogar dinheiro fora. Como são injustas, santo Deus! É verdade que comprei o galo de briga com o dinheiro dela, não nego. Mas, e o trabalho que vou ter para amestrá-lo? O milho, os acertos para as brigas? Tudo um sacrifício. E para que, vamos, me diga, para quê? Tornou a tossir. — Penso no futuro dos meus e eis a paga que recebo. 
— Pai, vamos entrar — insistiu Almiro, erguendo-se. 
— Está bem, vamos. Mas, eu lhe peço, filho: meta-se entre nós dois quando ela partir de correia pra cima de mim. Afinal de contas, é humilhante um homem como eu levar pisa de mulher. Humilhante! 
Entraram. Almiro à frente, candeeiro na mão; Nó, atrás, olhando para os lados. Houve um instante em que o cachorro esbarrou nas pernas de Nó. Mordendo o lábio para não gritar, o velho deu um pontapé no traseiro do animal. Depois, entre dentes: 
— Estás de combinação com ela, peste? 
O quarto, enfim. Dona dormia, boca aberta, olheiras, rosto amarelecido. 
"Pobre da velha" — pensou Nô. 
No quarto ao lado, Almiro voltou à rede, mas não conseguiu dormir. 
 "Sabe, meu filho? A vida é uma coisa difícil". 
Todas as manhãs o velho Nô era despertado pelo canto do azulão. 
— Vou já, bichinho — dizia ele, saindo da cama, de ceroulas, a camisa de meia deixando à mostra grande parte da barriga cabeluda. 
Velha Dona, já na cozinha, fazendo o café. Da porta dos fundos, Nô olhava o terreiro, onde as galinhas ciscavam. O galo, imponente, desfilava com o peito estufado. A pimenteira vermelha, em rápido crescimento. A latada de chuchu, duas roseiras mirradas, sem rosas. Naquele dia, assobiando, retirava a gaiola do prego, limpava-a, mudava a água e o alpiste, prendia no arame a metade de um maxixe. Como o sol houvesse saído, levou o passarinho para a janela da rua. Almiro estava sentado na pedra, mão no queixo, olhos pregados no chão. 
— Pensando na morte da bezerra? — indagou o velho. 
O rapaz calado. 
— Que há, filho? 
Ainda desta vez não obteve resposta. Almiro pensava na vida e tinha o coração inquieto. Como arranjar emprego para ajudar a mãe nas despesas da casa? Semana atrás procurara seu Dalton Arruda, proprietário da Loja Primavera, pedindo-lhe uma ocupação qualquer. O homem examinara-o com certa desconfiança:
— Você não é filho de Nó? 
Almiro sentiu logo que nada conseguiria. 
— Sou, sim, senhor. 
Dalton Arruda voltou-lhe as costas: 
— Deve ser a mesma bisca que o pai. 
Às vezes pensava em ir embora da cidade. Voltar talvez para Belo Jardim, apesar das lembranças tristes que guardava da infância. Para o Recife, quem sabe? Mas a coragem acabava lhe faltando. Tinha pena de deixar a mãe; quanto ao pai... Bem, fosse lá o que fosse, não podia negar que o amasse. Lamentava o que ele fazia, as suas doideiras, mas sabia que era um bom, nenhuma maldade no coração. 
— Quer vir comigo, filho? 
Almiro respondeu devagar, quase com raiva: 
— Aonde o senhor vai? 
— À casa do Elias, tratar da briga de domingo; vou desafiar o galo dele. 
O azulão abriu o bico. Por um instante, os dois ficaram a ouvi-lo, entretidos. 
— Bichinho de talento, hein, Almiro? 
Dona apareceu à janela para estender uma toalha: 
— Venha tomar café, menino. 
— Quero não, mãe — respondeu Almiro, afastando-se. 
 No seu passo apressado, Norberto de Holanda Cavalcanti já ia lá adiante. Dona tornou ao interior da casa, mão no quadril. 


CHEGARAM AS CHUVAS de junho, pesadas, dia e noite, enchendo as ruas de poças de lama, levando o frio às casas e, especialmente, ao corpo da velha Dona, cada vez mais arriado pela doença. No segundo domingo do mês, um sol ralo, indeciso, rompeu a crosta das nuvens e durante horas ficou enxugando os telhados, também a própria umidade agarrada no ar. Nô foi sentar-se na pedra em frente à casa. Depois de semanas seguidas de aguaceiro, ele sem poder sair, Dona gemendo pelos cantos e o azulão de bico calado, encolhido no poleiro, era bom aquele sol. Tudo parecia novo e iluminado: a rua, o mato rasteiro à beira da linha férrea, mesmo as pessoas que passavam. E, na gaiola, lá estava o azulão como nos seus melhores dias, cantando como nunca, desforrando-se da longa temporada de silêncio e melancolia. 
"A vida é linda" — pensava Nô. 
Mas o que o alegrava realmente, naquele instante, não era o fato de o sol ter voltado. Havia motivo mais sério, sonho acalentado no travesseiro noite após noite, desejo mordendo o coração, ânsia e prazer de esperar. Agora, sim, tinha certeza: novos dias de fartura e bonança voltariam à sua casa. Dona, com dinheiro bastante para ir ao médico; roupa chique para Almiro; ele próprio, Nô, já escolhera algo: uma espreguiçadeira que vira na Loja Primavera, toda forrada com lona listrada de vermelho e azul. O filho surgiu à janela: 
— Mãe chama o senhor para tomar café. 
Nó ergueu a mão num aceno: 
— Venha cá, filho; tenho uma novidade para você. 
— Ande, pai. 
O velho ergueu-se, resmungando. Ao chegar junto ao filho, pôs-lhe a mão no ombro: 
— Espere um pouquinho só. Baixando a voz: — Fechei o negócio com o Idelfonso. 
 — Que Idelfonso? 
— Aquele mulato sanfoneiro que mora lá no Cedro. 
Dona gritou lá de dentro: 
— Vocês não vêm, não? 
— Escuta, Almiro — insistiu Nô. — Idelfonso me vendeu seu canário de briga. É o bichinho mais valente que se possa imaginar. Fez uma pausa e escarrou no chão: — Desta vez fico mesmo rico. 
Almiro deu um muxoxo: 
— O senhor não toma mais jeito não, pai. Já se esqueceu do galo? 
Nô irritou-se: 
— Não me fale daquele filho da puta, não. 
O galo de briga, Nô não gostava nem de pensar nele. Havia sido a maior decepção de sua vida: na primeira disputa que tivera, além de levar uma pisa danada, fugira da rinha como boi ladrão. Um fiasco! Ao anoitecer, regressando a casa, antes mesmo de atravessar a porta — o bicho debaixo do braço — fora gritando para Dona: 
"Mulher, bote este merda na panela!” 
— Mas agora é diferente — disse Nô, com um sorriso forçado. 
Almiro encarava o pai, ele também com vontade de rir: 
— Escute bem o que lhe digo. O senhor vai arranjar mais aborrecimentos para a mãe e para o senhor mesmo. 
— Pode deixar; sei o que estou fazendo. 
E foram para a mesa, onde o café e o cuscuz de milho fumegavam. 


MELHOR GAIOLA não podia existir, pois ele mesmo a fizera, com zelo e carinho. Era de taquara, com as duas portas de frente, de arrasto, testeira e oqueira, segundo a regra e tradição. No fundo, colocara uma tábua de pinho, que havia retirado de um caixote de querosene. Agora, ali estava o canário com pena de pato, prontinho para a luta já combinada, comendo gema de ovo seca, couve (alface tirava o jogo), alpiste e água cristalina, apanhada numa mina perto da pedreira de Alcepino. 
— Só apanha se for safado — disse Nô, olhando com orgulho o bichinho amarelo, irrequieto no poleiro.
Almiro tomava banho de cacimba no fundo do quintal. Dona apareceu, ar espantado: 
— Onde botaram meu despertador? 
Nô, devagar, voltou-se para ela: 
— O despertador que estava no fundo do baú do quarto? Mostrando a maior surpresa: — Como um troço grande daquele pode ter desaparecido assim, sem mais nem menos? Eu mesmo vou procurá-lo. Afastando-se, disse ainda, demonstrando zanga: — Precisa haver mais ordem nesta casa, Dona. 
Almiro vinha se aproximando, enrolado numa toalha: 
— Que foi, mãe? 
— O despertador desapareceu. 
Nô já entrara, dirigindo-se ao quarto. Abriu o baú de um só golpe. Nada de relógio. Revirou trapos, um livro de missa, dois pares de sapatos velhos da mulher, as palhas bentas, secas, da última quaresma. Desistiu, voltando à cozinha, onde Dona e Almiro também procuravam. 
— Não posso compreender. Como desaparece assim um objeto tão grande? Você já viu direito, mulher? Não estará debaixo da cama? E me acontece isso logo hoje, quando preciso estar calmo, porque amanhã é o dia da briga. 
Revistaram a sala, o armário em cima do fogão, reviraram o colchão. Nô estava indignado: 
— Não posso entender; desordem demais nesta casa. 
 Apesar de tudo, foi apanhar o chapéu. Precisava sair. Um encontro marcado na bodega do Viana, onde iria fechar as apostas. Já na porta da rua, virou-se: 
— Quando voltar, quero encontrar esse relógio. Não admito desordem. 
Voltou depois da meia-noite. Todos dormiam. Sem barulho, tirou a roupa e deitou-se. Ao lado, Dona ressonava. Vinha do quarto vizinho o ronco do filho, na rede. Nô estava um pouco tonto e não custou a adormecer. Adormeceu, aliás, embalado pela música de uma serenata que passava na rua, pois era noite de lua cheia. 
Quando o sol despertou no domingo, foi encontrar o velho Nô já de banho tomado na cacimba. Pedindo à mulher que apressasse o café, vestiu-se rapidamente. Irritado, gritou para o filho: 
— Vamos, se avexe, rapaz, estamos atrasados. 
Com seu melhor terno branco — o único decente que possuía — sentou-se diante da mesa, no maior nervosismo do mundo: 
— Vamos, Dona. Bote o café, que o pessoal está esperando. 
Lembrou-se: 
— Ah, encontraram o despertador? 
A mulher não respondeu. 
— Faz mal, não. Amanhã lhe compro outro. 
Dez minutos depois, ele e Almiro estavam a caminho da casa de Gumercino. Manhã bonita, sol por todos os lados, gente passando para a missa das sete no Rosário, engraxates na calçada da pastelaria Americana limpando sapatos domingueiros. Passadas largas, a oqueira suspensa na mão direita, o velho Nô não escondia a emoção. Tinha o rosto vermelho e o suor lhe escorria pela testa. Dia decisivo, este. Já na Baixinha do Capitão loiô, um conhecido tentou abordá-lo. 
— Agora, não posso não! — gritou Nô. — Estou atrasado como os diabos. Apareça lá em casa, logo mais à noite, para comemorar. 
— Comemorar o quê? — perguntou o conhecido. 
Mas o velho Nô já se havia distanciado. Era como se não pudesse adiar por mais tempo o encontro com a fortuna. 
O terreiro da casa de Gumercino já estava cheio de gente que viera assistir a luta. Uns de cócoras, outros de pé, fumando e conversando sobre brigas de canários,contando vantagens, relembrando disputas antigas. Nô foi recebido com gritos de saudação e pilhérias: 
— Vais levar hoje uma presa de oveira — disse Ariostino. 
 — Qual! — retrucou o velho. — Aqui, hoje, vai ter canário apanhado, vão ver. Ofereceram-lhe um gole de cachaça: — Para esfriar os nervos. 
Encostaram as gaiolas e abriram as oqueiras. 
— Agora! — gritou Gumercino. 
Os dois canários atracaram-se, enfurecidos, ante a gritaria dos presentes. Não chegaram, porém, a lutar um minuto: Idelfonso surgiu, inopinadamente, aos berros, exigindo que interrompessem a briga. 
— Está doido? — protestou alguém. 
Indelfonso não deu atenção a nada: aproximou-se e, num arranco, ergueu a gaiola, nela metendo a mão para separar os canários. Depois, segurando o de Nô: 
— O canário não é mais dele não. — e apontava para o velho, rosto congestionado. 
— O quê? — berrou Nô. 
— Isso mesmo. Você não passa de um trapaceiro. Está desfeita a troca. Fique lá com seu despertador, que não trabalha, e eu fico com meu canário de briga. 
Todos caíram na gargalhada, menos o velho Nô, que avançou sobre Idelfonso, tentando arrebatar-lhe o pássaro. 
— Me dê o canário. 
— Dane-se, velho ladrão. 
— Ladrão é sua mãe. Negócio é negócio. Passe pra cá o canário. 
Às gargalhadas, os presentes procuravam conter os dois. Em vão. Fora de si, Nô aplicou uma rasteira em Idelfonsio, que, perdendo o equilíbrio, estatelou-se no chão, enquanto o canário se desvencilhava de sua mão e levantava vôo em direção a uma capoeira defronte. Almiro procurava separá-los: 
— Deixe-se disso, pai. 
Com uma pedra pontuda, Nô bateu duas vezes na cabeça de Idelfonso. O sangue jorrou. 


MADRUGADA ALTA, Almiro escutou o pai dizer, entre gemidos: 
— Os malvados deram cabo de mim, filho meu. 
Voz rouca, arrastada e sofrida que, atravessando as grades da cela, ia direta ao coração do rapaz, sentado na calçada ao pé da parede. Tudo fizera para que soltassem o velho. Pedira ao cabo; fora ao delegado. Respondia a mesma coisa: 
"Este corno velho desta não escapa". 
Mais desumanos ainda: tinham-lhe dado uma pisa de virola. Almiro tapara os ouvidos para não escutar os gritos do pai. Seu desejo era entrar na prisão e passar a faca nos filhos da puta. Mas que podia fazer? Agora, lá estava o pobre, gemendo, contorcendo-se em dores. Outra vez, a voz do velho: 
— Filho? 
— Sim, meu pai. 
— Estou que não me agüento; os sacanas me massacraram. 
— Tenha paciência, pai. Tudo vai acabar bem. 
Mordendo a ponta do lábio, Almiro chorava.O pai era um perdido, mas gostava dele. Por que, em vez de procurarem entender o velho Nô, o espancavam? Ele era aquilo mesmo, jamais mudaria, surra de nada adiantaria. Era apenas ruindade, dureza de coração de quem não sabia perdoar. Ia-se embora de Caruaru. Não queria mais viver numa terra assim. Do contrário, acabaria perdendo a paciência e faria justiça pelas próprias mãos. O que aqueles desgraçados mereciam era uma boa dúzia de facadas. 
— E sua mãe, filho? 
A lembrança da mãe fez crescer o desespero de Almiro. 
— Responda, filho. 
Engolindo um soluço Almiro falou: 
— Responder o que, pai? 
— A pergunta que fiz sobre sua mãe. 
— Mãe está em casa, já sabe de tudo. Foi falar com o prefeito, ele não recebeu. 
— Miseráveis! — gemeu o velho. 
Almiro estava decidido: iria embora da cidade, ali não havia ambiente para ele, sobretudo por causa do pai, de seu constante desregramento. Pensando bem, o velho Nô era um estorvo na vida dele e na da mãe. Mas não negava que o amasse. No fundo, até o admirava. Mais que tudo: era seu pai. De repente, começou a chover. 
— Você ainda está aí, filho? 
— Estou, sim, senhor. 
— Está chovendo, não está? 
— Está, meu pai. 
— Escuta, filho, não vá embora não. Não quero ficar sozinho. Meu corpo dói tanto... 
A chuva molhava a calçada, a folhagem dos ficus-benjumíns e o oitão da cadeia. Fazia frio. 
— Filho, estou sentindo tanta dor! 
Almiro disse que ia em casa apanhar álcool canforado. 
— Vá e não demore, filho; não quero ficar sozinho. 
Dez minutos depois, Almiro estava chegando em casa e viu luz pelas frestas. Antes de bater, percebeu que a porta estava aberta. Diante da imagem de São José, a vela acesa, Dona rezava. 
— Que está fazendo acordada a esta hora da noite, mãe? 
— Rezando pelo pecador. 
— Vim buscar remédio, mãe. 
— Pra quê? 
Almiro demorou a responder: 
— Deram uma pisa nele. 
 A velha suspirou: 
— Miseráveis! 
— Sim, mãe, miseráveis! 
Dona ergueu-se: 
— Você precisa ir embora deste lugar. Vou segunda-feira a Belo Jardim e falo com o doutor João. Ele sempre foi bom para mim, naquele tempo; ele vai arranjar emprego pra você, meu filho! 


 DOIS DIAS DEPOIS, ao ser solto (e durante esse tempo Almiro só arredava pé da calçada da cadeia para ir comer qualquer coisa) o velho Norberto de Holanda Cavalcanti, chegando em casa, foi direto para a cama. Aí permaneceu uma semana, o corpo cheio de equimoses, rosto inchado, cabeça latejando. Dona tinha viajado para Belo Jardim e era o filho quem cuidava dele: levava-lhe a comadre para as necessidades, mudava-lhe a roupa, dava-lhe comida na boca. 
— Me arrasaram, hein, filho? — gemia Nô, de quando em vez, mal conseguindo pronunciar as palavras.
Sozinho, mergulhado numa tristeza que não o largava, olhava a réstia de sol que, atravessando a telha quebrada, incidia sobre a cama. Procurava então colocar sua vida em ordem, pelo menos nos pensamentos. Estava no fim e que fizera dessa vida? Não sabia explicar a razão, mas ouvindo o canto do azulão, lá dentro, vendo os santos de Dona suspenso da parede, todos os objetos da mulher arrumados ali no quarto, sentindo a calma e o silêncio que impregnavam a casa, relembrava suas andanças antigas, as farras, as raparigas que passara no papo, noites de jogatina e bebedeiras e, reconhecia, não sabia bem o que escolher. Estivera sempre certo ou errado? De que lado ficava a verdade — a verdade seria igual para todos ou variava para cada criatura individualmente? 
"Com os diabos!" — pensava. "Acho que não me arrependo não". 
Por outro lado — refletia — seria covardia arrepender-se; estava muito velho, já no fim da vida, não ia agora, a essa altura, perder o caráter. 
— Almiro! — chamou. 
O filho botou a cabeça na porta: 
— Alguma coisa, pai? 
— Venha cá, filho; sente-se aqui ao meu lado, quero lhe falar. 
O rapaz obedeceu. 
— Seja franco, meu filho: que acha você do seu velho pai? Diga, com sinceridade. 
Almiro estava acanhado. 
— Não entendi o que pai quer dizer. 
— É simples, meu filho. Eu perguntava a você: que acha do seu pai, sou bom ou ruim, estou certo ou errado? Vamos, diga. 
Como Almiro continuasse calado, olhos fincados no chão, Nô prosseguiu: 
— Às vezes fico pensando em sua mãe, que nunca foi feliz, coitada. Mas, diga uma coisa: serei eu o culpado pela infelicidade dela? Depende de outro a felicidade de alguém? 
Suspirou fundo e a dor nas costas respondeu forte. O velho engoliu o gemido, parou de falar, olhos postos tristemente na cabeça curvada do filho. Depois: 
— Sinceramente, gostaria que alguém me respondesse. Sei que não levanto desta e não quero levar peso na consciência. 
— Vai ficar bom, pai. 
— Vou não, filho; qualquer coisa me diz que desta não escapo. 
O azulão estava com todo o fogo. Só o canto dele parecia existir agora dentro da casa. 
— Bichinho bom de verdade, hein, filho? 
De repente, um sono invencível pareceu baixar sobre seus olhos. O corpo amoleceu. Nem conseguia mais entreabrir os lábios. Assim mesmo, ainda pôde dizer: 
— Vamos conversar amanhã, filho. Não posso morrer sem essa conversa. Quase sem se fazer ouvir: — Quando eu me for, não quero que pense mal do seu velho pai. 


A CONVERSA DE Nô com Almiro não houve. O velho não despertou daquele sono súbito que o invadira. Sozinho com ele, na manhã seguinte, sem saber que providência tomar, Almiro correu a casa vizinha e pediu a D. Marocas que o ajudasse. A velha foi ver Nô e disse: 
— Estado de coma; vá ao hospital e peça uma ambulância. Procure o doutor Lucena e explique o caso a ele. 
Não permitiram, porém, que o rapaz ficasse ao lado do pai, na enfermaria. Almiro tentou reagir, mas viu que seria tolice. Assim, passou o resto do dia sentado na calçada do hospital, de vez em quando indo lá dentro pedir notícia à enfermeira. Se ao menos pudesse avisar à mãe. Mas, como, para onde escrever? Por outro lado, achava que Dona não tardaria a chegar. Dissera que não passaria mais de dois dias em Belo Jardim, embora já estivesse fora há quase cinco. 
Ao cair da noite, Almiro foi em casa, comeu ligeiro um pedaço de bacalhau cru com farinha, e voltou ao hospital. 
— Como está ele? — indagou da enfermeira. 
— No mesmo. 
Voltou à calçada, onde o cachorro o esperava. Devia ter adormecido, pois ao dar acordo de si, novamente, sentiu que alguém o puxava pelo braço. 
— Acorde, moço. 
— Como? 
Abriu os olhos e viu a enfermeira, que disse: 
— Vá em casa buscar uma roupa para seu pai. E seca: — Morreu. 


AMANHECIA. Seguido de perto pelo cachorro, Almiro voltou à casa. Antes mesmo de entrar, sentiu que sua mãe havia chegado, pois ouviu ruídos na sala da frente. Parou, sem coragem de bater à porta. Todo o corpo tremia, mas nos olhos nem uma lágrima. Queria chorar e não podia. Por fim, fazendo um esforço desesperado, conseguiu chamar: 
— Mãe! 
Não precisou repetir, pois a velha Dona abriu a porta, ainda vestindo a roupa com que viajara; sobre a cadeira de palhinha, a maleta de madeira. 
— De onde está chegando a esta hora, filho? E seu pai? 
Almiro baixou os olhos; por um instante, julgou que ia cair. 
— Vim buscar a roupa de pai. 
— A roupa? 
 Encarou a velha: 
— Ele morreu, mãe. 
Dona não disse nada. Recolheu-se ao quarto e Almiro ouviu o ruído do baú de couro sendo aberto. Daí a alguns minutos estava de volta: 
— Está aqui. 
Depois: 
— Eu vou com você. 
Antes, porém, ajoelhou-se diante da imagem de São José e disse uma oração. Almiro olhava-a. Dona ergueu-se: 
— Seu emprego está arranjado, meu filho. 
— Sim, mãe. 
Mas, pensou: 
"Daqui não arredarei pé. Meu lugar é nesta casa". 
Sim, seu lugar e seu mundo, como fora o de seu pai, o velho Norberto de Holanda Cavalcanti, o velho Nó, simplesmente. 
 — Vamos, mãe? 
— Vamos, meu filho. 
De repente, o azulão pôs-se a cantar. Era um canto como não se fazia ouvir há muito tempo. Instintivamente, mãe e filho se abraçaram e, juntos, começaram a chorar.


José Condé

domingo, 22 de junho de 2014

SONATA

A história que vou contar não tem a rigor um princípio, um meio e um fim. O Tempo é um rio sem nascentes a correr incessantemente para a Eternidade, mas bem se pode dar que em inesperados trechos de seu curso o nosso barco se afaste da correnteza, derivando para algum braço morto feito de antigas águas ficadas, e só Deus sabe o que então nos poderá acontecer. No entanto, para facilitar a narrativa, vamos supor que tudo tenha começado naquela tarde de abril.
Era o primeiro ano da Guerra e eu evitava ler os jornais ou dar ouvidos às pessoas que falavam em combates, bombardeios e movimentos de tropas.
"Os alemães romperão facilmente a Linha Maginot" assegurou-me um dia o desconhecido que se sentara a meu lado num banco de praça. "Em poucas semanas estarão senhores de Paris." Sacudi a cabeça e repliquei: "Impossível. Paris não é uma cidade do espaço, mas do tempo. É um estado de alma e como tal inacessível às Panzerdivisionen." O homem lançou-me um olhar enviesado, misto de estranheza e alarma. Ora, estou habituado a ser olhado desse modo. Um lunático! É o que murmuram de mim os inquilinos da casa de cômodos onde tenho um quarto alugado, com direito à mesa parca e ao banheiro coletivo.
E é natural que pensem assim. Sou um sujeito um tanto esquisito, um tímido, um solitário que às vezes passa horas inteiras a conversar consigo mesmo em voz alta. "Bicho-de-concha!" — já disseram de mim. Sim, mas a essa apagada ostra não resta nem o consolo de ter produzido em sua solidão alguma pérola rara, a não ser... Mas não devo antecipar nem julgar.
Homem de necessidades modestas, o que ganho, dando lições de piano a domicílio, basta para o meu sustento e ainda me permite comprar discos de gramofone e ir de vez em quando a concertos. Quase todas as noises, depois de vaguear sozinho pelas ruas, recolho-me ao quarto, ponho a eletrola a funcionar e, estendido na cama, cerro os olhos e fico a escutar os últimos quartetos de Beethoven, tentando descobrir o que teria querido dizer o Velho com esta ou aquela frase.
Tenho no quarto um piano no qual costumo tocar as minhas próprias composições, que nunca tive a coragem nem a necessidade de mostrar a ninguém. Disse um poeta que
Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o ato
Cai a Sombra.
Pois entre essa Sombra e a mal-entrevista claridade duma esperança vivia eu, aparentemente sem outra ambição que a de manter a paz e a solitude.
No Inverno, na Primavera e no Verão sinto-me como que exilado, só encontrando o meu clima nativo, o meu reino e o meu nicho no Outono — a estação que envolve as pessoas e as coisas numa surdina lilás. É como se Deus armasse e iluminasse o palco do mundo especialmente para seus mistérios prediletos, de modo que a qualquer minuto um milagre pode acontecer.
Naquele dia de abril andava eu pelas ruas numa espécie de sonambulismo, com a impressão de que o Outono era uma opala dentro da qual estava embutida a minha cidade com as suas gentes, casas, ruas, parques e monumentos, bem como esses navios de vidrilhos coloridos que os presidiários constroem pacientemente, pedacinho a pedacinho, dentro de garrafas. Veio-me então o desejo de compor uma sonata para a tarde.
Comecei com um andantino serenamente melancólico e brinquei com ele durante duas quadras, com a atenção dividida entre a música e o mundo. De súbito as mãos sardentas dum de meus alunos puseram-se a tocar escalas dentro de meu crânio com uma violência atroz, e lá se foi o andantino…
Fiquei a pensar contrariado nas lições que tinha de dar no dia seguinte. Ah! A monotonia dos exercícios, a obtusidade da maioria dos discípulos, a incompreensão e a impertinência dos pais! Devo confessar que não gostava da minha profissão e que, se não a abandonava, era porque não saberia fazer outra coisa para ganhar a vida, pois repugnava-me a ideia de tocar músicas vulgares nessas casas públicas onde se dança, come e bebe à noite.
Quando o andantino me voltou à mente, fiquei a seguir suas notas como quem observa crianças a brincarem de roda num jardim. De repente um ruído medonho e rechinante trincou de cima a baixo o vidro de meu devaneio, ao mesmo tempo que alguém me puxava violentamente para trás. Ora, não tenho nenhum instinto de conservação. Dizem que Shelley também era assim. Talvez seja uma pretensão absurda estar eu aqui a comparar-me com o poeta. Mas a verdade é que não tenho.
Levei um bom par de segundos para compreender que quase ficara debaixo das rodas dum ônibus, e que um transeunte desconhecido me salvara a vida. Balbuciei um agradecimento para o homem que ainda me segurava o braço, mas o que me impressionava mesmo no momento era a expressão de fúria do chofer que gritava: "Não enxerga, animal?"
Como era possível alguém encolerizar-se e dizer grosserias numa tarde de Outono? O ônibus retomou a marcha. O meu salvador perdeu-se na multidão.
Percebi então que estava à frente do edifício da Biblioteca Pública. O casarão pardo e severo tinha um ar tão convidativo e protetor que, sem saber exatamente por que, resolvi entrar. Atravessei o saguão de mármore, penetrei na sala de leitura e aproximei-me do funcionário a quem hoje chamo Confúcio por motivos que em breve ficarão suficientemente claros. Éramos já velhos conhecidos, pois eu costumava ir com alguma freqüência à Biblioteca.
O homem ergueu os olhos e perguntou: "Que deseja o amigo?" A minha indecisão tomou a forma dum sorriso. Podia pedir um livro de poemas ou algum ensaio sobre Mozart; no entanto, surpreendi-me a dizer:
— Quero ver uns jornais velhos.
— Que jornais?
Mencionei o nome do mais antigo matutino da cidade.
— E as datas?
— 1912.
Era o ano de meu nascimento.
O funcionário afastou-se, tornou pouco depois com dois grandes volumes encadernados debaixo do braço e depô-los sobre a mesa junto da qual eu me sentara.Comecei a folhear distraidamente os jornais, achando um sabor nostálgico nos anúncios de cinema e teatro, nas notícias da coluna social e principalmente nas apagadas reproduções de fotografias em que homens e mulheres apareciam com as roupas da época. No exemplar cuja data correspondia exatamente à daquele dia de abril, encontrei na página dos "Precisa-se" um anúncio que me chamou a atenção:
PROFESSOR DE PIANO. Precisa-se dum professor de piano, pessoa de bons costumes, para lecionar moça de família já com quatro anos de estudo. Tratar à Rua do Salgueiro n° 25 (é uma casa antiga, com um anjo triste no jardim).
Não pude deixar de sorrir. O funcionário aproximou-se.
— Que foi que o amigo descobriu de tão interessante? Mostrei-lhe o anúncio. Ele acavalou os óculos no nariz, inclinou-se sobre a mesa e leu.
— Escute… — murmurei. — Há vinte e oito anos numa casa da Rua do Salgueiro uma mocinha esperava o seu professor de piano. Será que ele apareceu? Qual teria sido o destino dessa moça?O funcionário encolheu os ombros.
— Decerto engordou, envelheceu, ficou avó... Ou morreu.
— Não seja tão pessimista. Imagine outra coisa: o tempo não passou e a mocinha ainda lá está esperando…
— Imagine então que eu nasci na China há muitos séculos e me chamo Confúcio.— E por que não?
O funcionário soltou uma risada, mas em surdina, como convinha ao lugar e à hora. Apanhei o chapéu e saí. As frases do anúncio soavam-me na cabeça como a melodia pueril duma caixinha de música. Descobri que a Rua do Salgueiro, aonde cheguei ao cair da tarde, tinha agora o nome dum caudilho de três revoluções e ficava num desses distritos assolados pelo último plano de urbanização. As vivendas antigas haviam sido derrubadas para dar lugar a modernos prédios de apartamentos. Não avistei nenhum salgueiro nem nada que pudesse sequer sugerir a possibilidade da sobrevivência duma casa como a do anúncio.
Saí a caminhar lentamente ao ritmo de meus pensamentos, de novo concentrado no andantino. A trovoada do tráfego havia-se amortecido de tal forma, que já agora não passava dum zumbido distante. Os lampiões estavam apagados ao longo das calçadas inexplicavelmente desertas. Eu não ouvia mais nem o ruído de meus próprios passos: era como se caminhasse pisando em paina.
A rua estava tocada duma névoa leitosa de cambiantes arroxeados, que parecia deformar todas as imagens, e eu tinha a impressão de estar no fundo do oceano como um escafandrista desmemoriado que já não sabe mais por que desceu às profundezas.
Quando dei acordo de mim, estava parado diante dum velho portão de ferro em cujo frontão se via uma placa com o número 25. Espiei por entre suas grades e avistei, no fundo dum jardim apertado entre duas enormes casas de apartamentos, uma vivenda colonial de fachada caiada e janelas azuis. A poucos passos da sua porta central, debaixo duma paineira florida, cismava um anjo de bronze, sentado numa pedra na atitude do Penseur de Rodin. O anjo triste!
Veio-me então um contentamento indescritível, uma espécie de orgulho por verificar que ainda havia no mundo alguém que prezava o passado e resistia à tentação do lucro, recusando-se a vender aquela propriedade aos insaciáveis construtores de arranha-céus. Abri o portão, atravessei o jardim crepuscular, acariciei a cabeça azinhavrada do anjo, aproximei-me da porta e bati. Meu coração pulsava um pouco descompassado. Por que fazia eu aquilo? Com que direito? Com que propósito? Que dizer se alguém viesse abrir a porta?
Tomado dum repentino temor, ia fazer meia volta e fugir quando a porta se abriu e na penumbra dum corredor divisei um vulto de mulher. Uma voz neutra chegou-me aos ouvidos:
— Que é que o senhor deseja?
A resposta que me ocorreu na confusão do momento pareceu-me então insensata, mas sei agora que era a mais certa, a mais natural, a única.
— É aqui que estão precisando dum professor de piano ?
Houve da parte da mulher uma breve hesitação.
— É aqui mesmo. Tenha a bondade de entrar, que vou avisar a patroa.
Fez-me passar para uma sala alumiada pela luz dum lampião em cuja esfera de vidro branco e fosco estava pintada uma borboleta amarela entre dois ramilhetes de flores. Olhei em torno: uma dessas salas de visitas muito em voga na última década no século passado, com sua mobília de jacarandá lavrado e estofo cor de vinho, o sofá e as cadeiras com rodinhas nos pés. Negrejava a um canto o piano, em cima do qual se alinhavam bibelôs sobre guardanapos de croché. Viam-se pelas paredes quadros com retratos de gente de antanho.
Aquecia aquela atmosfera uma intimidade tão acolhedora, uma tal sugestão de aconchego humano, que pela primeira vez em toda a minha vida me senti completamente de acordo com um ambiente. Fiquei tão absorto na fruição daquele lugar e daquele momento, que nem dei pela entrada da dona da casa.
— Boa noite — disse ela. — O senhor então é professor de piano?
A sua voz, como a sua fisionomia, era uma curiosa combinação de doçura e determinação. Apertei a mão que me estendia. Ela me indicou uma cadeira. Sentei-me e só então notei que tinha diante de mim uma dama grisalha vestida exatamente como minha mãe naquele retrato, tirado em princípios de 1913, que lá está no meu álbum de família: blusa branca de gola alta e rendada, cintura muito fina, saia escura e afunilada, com a barra quase a tocar o soalho. O seu penteado lembrava-me o das figuras femininas do desenhista Gibson que apareciam nas ilustrações das revistas de minha infância.
— Como se chama o senhor?
Disse-lhe o meu nome.
— Que idade tem?
— Vinte e oito anos.
— Só? Esperava um mestre mais idoso…— Se a senhora prefere que eu envelheça — sorri — posso ir embora e voltar daqui a vinte anos…
Ela soltou uma sonora risada e eu temi que as suas vibrações quebrassem o sortilégio.
Sim, porque eu sentia que algo de maravilhoso me estava acontecendo, eu não compreendia por que nem como. Só sabia que tinha encontrado um lar, um abrigo.
O rosto da dona da casa de novo se fez sério.— Vou ser-lhe muito sincera, como é meu hábito. Sou viúva, vivo sozinha neste casarão com minha filha e estou em completo desacordo com certas liberdades da vida moderna. O senhor já leu a respeito dos despautérios dessas tais sufragistas?
Sacudi a cabeça afirmativamente.
— Pois para mim — prosseguiu ela — a mulher foi feita para o lar e não para votar e andar vestida como os homens. Minha filha é uma moça educada à maneira antiga. É por essa razão que procuro para ela um professor respeitável e respeitador. Por falar nisso, o senhor traz algum atestado ou carta de recomendação?
— Aqui comigo, não. Mas se faz questão, posso trazer outro dia. — Traga. Agora vamos a outro assunto. Qual é o seu preço?
— A senhora diga. . .— Pagávamos vinte por mês para o último professor. Vinha duas vezes por semana.
— Pois vinte fica muito bem.
— Quando pode começar?— Vamos ver… — murmurei, tirando do bolso a caneta e o caderno de notas.
— Que dia é amanhã?
— Vinte e nove.
— De abril?
— Claro.
Senti o coração desfalecer quando perguntei:
— De que ano?
A dama franziu a testa.
— Ora essa! Será que não sabe que já estamos em 1912?
— Desculpe. Sou um pouco distraído.
— Pois não aprecio nada as pessoas distraídas. E, se permite uma observação de caráter pessoal, não gosto do jeito extravagante como o senhor se traja. O caráter dum homem revela-se na maneira como ele anda vestido.
Por alguns instantes os seus olhos escuros fitaram-me com uma intensidade não de todo destituída de simpatia.
— Bem. A sua fisionomia inspira-me confiança. Depois, não se trata de casamento. Se eu achar que o senhor não serve, hei de dizer-lhe com franqueza. Mas vamos ver que horas e dias tem livres.
Fiquei a examinar o meu horário, sem entretanto compreender o que ele dizia, pois os seus nomes, dias e horas falavam dum mundo e dum tempo que eu não amava e que já agora para mim estavam mortos e quase esquecidos. Como a indecisão se prolongasse, a dona da casa socorreu-me com uma sugestão. Não podia eu dar as lições às terças e quintas, das cinco às seis da tarde?
— Perfeito! — exclamei automaticamente.
Houve um curto silêncio ao cabo do qual ela gritou: "Adriana!"
Adriana entrou na sala toda vestida de branco. Teria quando muito vinte anos e parecia-se — senti logo! — com a misteriosa imagem de mulher que costumava visitar os meus sonhos, e cujo rosto eu jamais conseguira ver com clareza.
A presença dessa estranha aparição fazia-se sentir ora corporificada numa branca silhueta feminina, ora na forma duma melodia que em vão eu tentava capturar. Em mais dum sonho andei a perseguir aquele fantasma através de montanhas, prados, florestas e águas. Agora ele ali estava diante de mim, ao alcance de minha mão.
A luz do lampião batia em cheio no rosto de Adriana. E quando ela me mirou com seus olhos dum verde úmido de alga, o escafandrista finalmente compreendeu por que havia descido às profundezas do mar.
E a alegria do descobrimento transformou-se em música em meu espírito. Era uma frase larga, clara e impetuosa como um voo de pássaro ou como uma frecha de prata lançada contra a lua. Essa melodia acompanhou-me quando deixei a casa do anjo triste e atravessei o jardim murmurando: "O que aconteceu é impossível, portanto não preciso dar explicações a ninguém nem a mim mesmo. Basta que eu acredite. E eu acredito, ó meu Deus, como acredito!"
Num doce estonteamento saí a caminhar pelas ruas. A noite havia caído por completo. Bondes passavam ribombando, automóveis com pupilas de fogo rodavam sobre o asfalto, vitrinas lançavam sobre as calçadas cheias de transeuntes sua lívida luz fluorescente, e eu caminhava por entre aquelas criaturas, ruídos e clarões carregando meu sonho com o trêmulo e assustado cuidado de quem leva nas mãos um cristal raro e frágil, que ao menor toque se pode partir. Apressei o passo e refugiei-me no quarto, para melhor proteger as minhas lembranças contra a brutalidade da noite metropolitana.
Sentei-me ao piano e comecei a desenvolver o tema sugerido pela presença de Adriana. Esqueci o abismo, a sombra, o tempo e o mundo. O dia começava a clarear quando terminei de transportar para a pauta o primeiro movimento duma sonata.
Atirei-me na cama tão extenuado, que dormi imediatamente. Quando despertei, o sol estava já no zênite. Vieram-me à mente os acontecimentos do dia anterior e eu disse para mim mesmo. "Foi tudo um sonho."
Mas não! Encontrei sobre o peito o papel pautado com o primeiro movimento da sonata. Saltei da cama e apanhei o caderno de notas, abri-o e li: "Terças e quintas, lições para Adriana, Rua do Salgueiro, 25. Das 5 às 6". Hoje é terça! — descobri com alegria. Barbeei-me com uma pressa nervosa, vesti-me e saí.
Na escada encontrei a senhoria, que me censurou: "Os outros inquilinos estão furiosos. O senhor passou a noite inteirinha batendo no piano. Isso não se faz".
"Isso não se faz", repeti automaticamente. Quando cheguei à calçada, uma dúvida angustiava-me. E se eu não encontrasse mais a casa do anjo triste? O meu primeiro impulso foi o de correr para a Rua do Salgueiro. Contive-me: era melhor esperar a hora da primeira lição.
Naquela tarde dei as outras lições com a atenção vaga. Pouco antes das cinco, sem a menor explicação deixei uma aluna em meio dum estudo de Chopin e encaminhei-me para a Rua do Salgueiro. Quando avistei os dois arranha-céus que flanqueavam o jardim da casa do anjo, afrouxei o passo. A rua estava deserta e as lâmpadas ainda apagadas. Uma bruma dourada algodoava o ar, amortecendo todos os sons. Abri o velho portão, entrei, atravessei o jardim, sorri para o anjo e bati à porta. A criada fez-me entrar. Um relógio no fundo da casa começou a dar as horas. Adriana esperava-me de pé junto ao piano.
Notei que tinha os olhos brilhantes de lágrimas.
— Andou chorando?
Fez que sim com um aceno de cabeça e, sentando-se ao piano e batendo distraidamente numa tecla e noutra, balbuciou:
— Estive lendo a história do naufrágio.
— Que naufrágio?
Fitou em mim o olhos surpresos.
— Então não sabe, não leu? O do Titanic…
— Ah!
A catástrofe do Titanic, ocorrida no ano em que nasci, havia de me deixar profundamente emocionado quando, dez anos mais tarde, a vi descrita numa revista ilustrada com todos os seus pormenores dramáticos.
— Bom... — murmurei. — Agora toque alguma coisa para que eu avalie o seu adiantamento.
Adriana pôs-se a tocar uma sonatina de Scarlatti com algumas hesitações mas com muito sentimento. Enquanto ela tocava, pude observar-lhe melhor as feições. Não me parece possível retratar com palavras um rosto de mulher. O que importa não é o seu formato, a cor dos olhos, o desenho da boca e do nariz ou o tom da pele. É, antes, uma certa qualidade interior que ilumina a face, animando-a e tornando-a distinta de todas as outras, e essa qualidade raramente ou nunca se deixa prender até mesmo pela câmara fotográfica.
Existem artistas hábeis ou apenas afortunados que, ao pintarem um retrato de mulher, conseguem uma vez que outra fixar na tela essa luminosidade insituável que à primeira vista parece vir do olhar, mas que no entanto continuará a dar lustro à face mesmo que Ihe vendemos os olhos. Pois um resplendor como esse envolvia a pessoa inteira de Adriana. Sua presença era quente, fácil e amiga.
— Muito bem — disse eu, quando ela terminou de tocar a sonatina. — Já vi que gosta de música. Tocou com alma.
— O senhor acha mesmo? Que bom! Eu adoro a música. A mamãe até me prometeu comprar um gramofone desses de discos, o senhor sabe? Não os de cilindros...
Contei-lhe que era compositor e estava escrevendo uma sonata.
— Ah! Toque então para mim.
— Ainda não está pronta. Só o primeiro movimento.
Naquele instante, a mãe de Adriana surgiu à porta. Assumi um ar grave de professor e disse:
— Bom. Vamos agora tocar umas escalas.
Minha vida, então, mudou por completo. Eu passava as horas a esperar com ansiedade o momento de estar com Adriana naquela sala vespertina. Jamais contei a quem quer que fosse o meu segredo. A ostra agora fechava-se mais que nunca na concha, ciosa de sua pérola.
Havia, entretanto, momentos em que eu temia não o mundo, mas o lógico que mora dentro de cada um de nós e que a qualquer minuto poderia pedir explicações sobre o que me estava acontecendo. E toda a vez que esse censor ameaçava fazer a temida pergunta, eu subornava-o: "Preciso acreditar naquilo, senão estarei perdido para sempre."
Madrugadas houve em que andei à-toa pelas ruas com um desejo quase insuportável de ir olhar a casa do anjo triste. Uma voz secreta, porém, aconselhava-me: "Não vás. Se fores, podes descobrir que tudo não passa duma ilusão." E não ia.Mas nos dias de lição lá estava eu a cruzar alvoroçado o jardim antigo, a acariciar a cabeça do anjo, a bater na porta e a entrar na sala, no mundo e no tempo de Adriana.
Uma doce intimidade se foi formando entre nós, um entendimento que não dependia de palavras nem de pontos de referência no tempo ou no espaço.
Quando a mãe não estava presente, Adriana descrevia-me cenas e impressões de sua infância passada naquela mesma casa. Contou-me da noite em que entrara o Século e ela fora pela mão do pai ver a Grande Exposição. Ah! Nunca mais esquecera o carrossel, os palhaços, os jogos, a sala dos espelhos e acima de tudo os fogos de artifício, que romperam exatamente ao soar da última badalada da meia-noite, acompanhados do rebimbar dos sinos de todas as igrejas da cidade!
Adriana quis saber onde estava eu naquela grande noite.
— No mar — respondi, sem saber ao certo por quê. E ela sorriu, aparentemente satisfeita com a resposta.
Às vezes quem falava mais era eu, surpreendido e encantado que estava por encontrar alguém que se interessasse pela minha pessoa e pela minha vida. Esvaziei assim o peito de muitos cuidados e segredos. Coisas que eu trazia fechadas a sete chaves no recesso de meu ser, vieram à tona e transformaram-se em palavras.
Como as nossas conversas se prolongassem numa surdina suspeita, mais duma vez a mãe de Adriana apareceu à porta para perguntar por que o senhor professor havia interrompido a lição. Tivemos, então, de inventar um estratagema que muito nos divertia. Adriana tocava seus exercícios e nós conversávamos protegidos por essa cortina de música.
Mas como eram vazias e tristes as horas que eu passava longe dela! A única coisa que possuía o dom de me devolver quase inteira a presença de Adriana era a sonata, a cujo desenvolvimento me entreguei com paixão durante todo aquele mês de maio em que fui perdendo um por um os alunos, graças às minhas impontualidades e distrações.
O segundo movimento, um scherzo, veio-me fácil à imaginação e com a mesma espontaneidade levei-o para a pauta. Entrei depois no terceiro, um molto agitato, que compus num dia de fins de maio em que o Inverno mandara no vento o seu primeiro recado. Eu temia a chegada do frio, pois uma misteriosa intuição me dizia que os ventos de julho poderiam impelir meu barco para fora do braço morto, devolvendo-o à correnteza do Tempo e afastando-me para sempre da criatura que eu amava.
Uma tardinha, mal entrei na casa do anjo, Adriana veio ao meu encontro sorrindo, com o jornal do dia nas mãos.
— Veja! — exclamou. — Ontem nasceu uma criança com o seu nome.
Mostrou-me a coluna social e eu senti um calafrio ao ler nela a participação de meu próprio nascimento.
— Que destino terá essa criança? — perguntei.
— Talvez chegue a Presidente da República.
— Ou não passe jamais dum simples professor de piano…
Adriana fitou-me com uma tão profunda expressão de ternura, que fiquei conturbado. E para esconder o meu embaraço, gaguejei:— Vamos tocar aquela sarabanda…
Foi no último dia de maio que levei a sonata pronta à casa do anjo. Toquei-a para Adriana. O primeiro movimento traduzia a minha surpresa e a alegria de encontrá-la. Era entretanto um allegro ma non troppo, pois no fundo desse contentamento já se podia entrever o temor que eu tinha de um dia perdê-la. O scherzo pintava com cores vivas não só os momentos felizes que passáramos juntos naquela sala como também cenas da infância de Adriana. Lá estava a menininha de tranças compridas ora a brincar no quarto com suas bonecas, ora a correr no jardim tangendo um arco tricolor. Depois era Adriana a rir um riso assustado diante daquelas sete outras Adrianas deformadas que espelhos côncavos e convexos lhe deparavam na sala mágica da Grande Exposição. Vinha a seguir um molto agitato de curta duração que descrevia o desespero dum homem a caminhar desorientado pelas ruas vazias, em busca dum amor impossível perdido no Tempo. E a sonata terminava com um prolongado adagio repassado dessa tristeza resignada de quem se rende diante do irremediável, sem rancores para com a vida ou as outras criaturas — um movimento lento e nostálgico sugestivo dum rio a correr para o mar, levando consigo a saudade das coisas vistas em suas margens e a certeza de que suas águas jamais tornariam a refletir aquelas imagens queridas.
Quando terminei de tocar, Adriana balbuciou:— Linda, muito linda.
— Pois é sua.
Tirei do bolso a caneta e por baixo do título — Sonata em Ré menor — escrevi: "Para Adriana. Maio de 1912."
Ela olhou-me com um jeito triste e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Desejei então ter a confirmação de que ela me amava, queria que ela me dissesse isso com palavras.
Talvez eu não fosse digno do milagre que me acontecera, pois ansiava por tocar Adriana, tê-la para mim, trazê-la para o meu mundo, para o meu tempo. E se havia no meu desejo aquela urgência tão aflita era porque eu notara no ar lá fora sinais de Inverno: a cabeça do anjo estava gelada quando eu a acariciara aquela tarde ao chegar.
A certeza de não pertencer àquele lugar e àquela hora — pois eu não passava dum fantasma do futuro — deu-me uma audácia de que nunca antes eu havia sido capaz. Tomei a mão de Adriana nas minhas e exclamei: "Eu te amo, eu te amo, eu te amo!" Ela ergueu-se, puxou bruscamente a mão e voltou o rosto, murmurando: "Mas é impossível!" E com voz trêmula contou-me que estava comprometida e ia casar em julho. Não amava o noivo, isso não! Mas a mãe insistia no casamento e não lhe restava outra alternativa senão obedecer.
Fiz então algo de insensato pois devia saber que nenhum gesto meu, nenhuma palavra, nenhum desejo poderia alterar o que já havia acontecido.
— Mas ninguém pode ser obrigado a casar com quem não ama! — gritei.
Naquele instante a mãe de Adriana entrou na sala e com uma voz que me deixou gelado, disse:
— O senhor está cometendo uma indignidade. Traiu a minha confiança e abusou de minha filha. Saia imediatamente desta casa!
Fora encontrei o primeiro sopro de Inverno e um céu de cinza. As horas que se seguiram foram de desespero. Recolhi-me ao quarto mas não encontrei consolo na música nem nos livros. Busquei, mas em vão, encontrar sinais palpáveis de que tudo aquilo não fora apenas uma alucinação ou um prolongado sonho. Nada encontrei além das minhas recordações. Deitei-me na cama e chorei como havia muito não chorava.
No dia seguinte, quando saí a andar de novo pelas ruas, foi com a sensação de estar perdido numa cidade estranha e hostil. Meus passos acabaram conduzindo-me para a Rua do Salgueiro, e eu levava no coração um pressentimento cruel, que não tardei a ver confirmado. Bem no lugar onde estava a casa do anjo triste, erguia-se agora um edifício de apartamentos de vinte andares. Atravessei a rua e entrei num café. Fiz perguntas com ar indiferente ao criado que me serviu. Lembrava-se ele dos prédios primitivos daquela rua?
— Não senhor — respondeu. — Sou novo aqui. Pergunte ao dono do café, que é um dos moradores mais antigos desta zona. Patrão, este moço quer perguntar-lhe uma coisa…
O proprietário do café, um homem grisalho com um ar de bondade cansada ou desiludida, aproximou-se. Fiz um sinal na direção da rua.
— Que fim levou a casa branca colonial que havia lá do outro lado, com um anjo de bronze no jardim?
O homem lançou-me um olhar intrigado.
— Quantos anos o senhor tem?
Disse-lhe a minha idade e ele perguntou:
— Como é que se pode lembrar dessa casa se ela foi derrubada faz mais de vinte e cinco anos?
Sacudi os ombros. Uma estranha calma agora me adormentava o espírito. Tudo tinha acabado como devia. O meu barco deixava-se levar pela correnteza do rio e eu não sabia nem queria saber o que me esperava no Grande Oceano. Nada mais importava. Eu passara a viver o adágio da sonata.
O proprietário do café, entretanto, esperava ainda a resposta.
— O senhor acredita em milagres? — perguntei. Ele sacudiu negativamente a cabeça e respondeu:
— Eu, não. E o senhor?

A minha vida voltou a ser o que fora antes. Aquele Inverno foi longo e sombrio. A lembrança de Adriana vivia comigo e era nela que eu pensava quando compunha minhas peças. Recusava-me ainda a examinar aquele singular episódio de minha vida à luz da razão. Quando menino li numa antologia o poema do poleá que dissecou de tal forma a mosca azul que acabou destruindo o seu mais belo sonho. Aprendi a lição. Isso, porém, não impediu que num dia de setembro eu tornasse a entrar na Biblioteca Pública, pedisse a Confúcio jornais antigos, de 1912 até 1920, e me pusesse a folheá-los com uma inquieta esperança.
No número de julho de 1912 encontrei a notícia do casamento de Adriana. Passei os olhos por vários volumes que cobriam cinco anos, sem encontrar a menor referência quer a ela quer ao marido, que o cronista social afirmava ser "um esteio da nossa sociedade".
Mas num número de maio de 1917 dei com a participação do nascimento da filha do casal, que recebera em batismo o nome da mãe. E, ao abrir o volume correspondente a 1919, na primeira página do primeiro jornal de janeiro, vi um convite de enterro. Lá estava, entre duas tarjas negras, sob uma cruz, o nome da minha Adriana. Li o endereço da casa mortuária, que nada significava para mim, uma vez que Ela não estava mais lá, e fechei o volume, numa confusão de sentimentos, fiz um sinal amistoso para Confúcio, saí da Biblioteca e entrei num táxi. "Cemitério da Luz", pedi.
Eu imaginava para Adriana uma sepultura simples: uma lápide cercada de relva, e sobre a lápide, sentado numa pedra, o anjo triste. No entanto a imaginação burguesa do marido havia-lhe dado um mausoléu pretensioso de mármore esverdeado, com um pórtico grego e uma inscrição latina na base do frontão. Encostei o rosto no vidro da porta do jazigo e, depois que os meus olhos se habituaram à penumbra do interior, pude divisar, em cima dum aparador de mármore, um grande retrato de Adriana. Senti um arrepio. Quando eu andava pelas ruas da cidade naquela inesquecível tarde de abril — refleti — Adriana já estava morta e sepultada. No entanto…
Não. O melhor era entesourar as doces lembranças e não procurar saber a razão de nada.
Ouvi uma voz.
—Alguma conhecida sua?
Voltei-me e dei com uma mulher muito jovem que me mirava com curiosidade. Estava vestida de verde, trazia uma braçada de junquilhos e o vento agitava-lhe os cabelos bronzeados.
É alguém que conheci há muito tempo — expliquei.
Houve um curto silêncio em que fiquei de olhos baixos a fitar a sombra da desconhecida no pavimento de mosaicos da alameda.
— Pergunto — esclareceu ela — porque esse é o túmulo de minha mãe. Não tive a menor surpresa. Antes de ela pronunciar aquelas palavras, eu já as havia pressentido. Ergui os olhos. A moça parecia-se com a mãe. Não era uma parecença de irmã gêmea, uma semelhança de traços, mas sim uma identidade de clima, de aura, de... Não sei por que estou sempre tentando definir o indefinível. Duma coisa, porém, estou certo: os olhos eram os mesmos no desenho e na cor. Só diferiam na expressão. Nos da Adriana morta havia paz. Nos da Adriana viva, algo que me inquietava.
— Mas como podia ter conhecido a minha mãe? Ela morreu há quase vinte e dois anos. Nesse tempo o senhor devia ser uma criança…
De novo baixei o olhar para a sombra.
— Confesso que menti quando disse que era uma conhecida minha. O que aconteceu mesmo foi que eu ia passando e olhei para dentro do jazigo e…
— Está bem. Não precisa explicar. Olhar não é nenhum pecado.
Abriu a porta do mausoléu, voltou-se para mim e perguntou se eu queria entrar. Respondi que não. Ela entrou, depôs as flores sob o retrato, ajoelhou-se ao pé do altar e ficou a orar. Uma voz dizia-me: "Foge, foge enquanto é tempo."
No entanto eu permanecia onde estava, como que enfeitiçado. Adriana ergueu-se, saiu do jazigo, fechou a porta e ao voltar-se disse:
— O senhor ainda está aí? Posso levá-lo para a cidade no meu carro. Vamos!
Disse esse vamos com uma autoridade que não admitia contestação. Saímos a caminhar lado a lado pela alameda de ciprestes, e eu olhava para as nossas sombras sobre os mosaicos sem saber ao certo que pensar de tudo aquilo. O automóvel era um conversível bege, reluzente de metais cromados. Entrei, sentei-me ao lado de Adriana, e depois que o carro arrancou fiquei a examinar obliquamente o perfil da inesperada companheira.
Eu estava embaraçado, sem saber que dizer. Não me foi, porém, necessário procurar assunto, pois Adriana não cessou de falar, lançando-me de quando em quando olhares rápidos e incisivos. Como era o meu nome? Onde morava? Que fazia? Músico, hein? Interessante.
Contou-me que gostava de música, tocava um pouco de piano, tinha uma discoteca fabulosa. Perguntou-me que pensava eu de Stravinsky e de Béla Bartók. Respondi que preferia os primitivos italianos. —Ah! Mas o senhor não acha que os clássicos não satisfazem mais a nossa sensibilidade superexcitada de habitantes do caos?
— Sou um tanto conservador…
— Está-se vendo pelas suas roupas — replicou Adriana, soltando uma risada, o que aumentou o meu embaraço e a minha sensação de solitude.
No entanto confesso que agora não desejava ver-me livre daquela criatura. Fosse como fosse, ela era um prolongamento da Outra.
— Onde quer ficar? — perguntou, quando nos aproximávamos do centro da cidade.
—Ah! Já sei. O senhor vai à minha casa. Tomaremos um drink e eu o apresentarei ao meu pai, que é um amor de velho. Quero que toque para mim uma das suas composições. As minhas amigas vão ficar loucas de inveja se eu descobrir um novo gênio musical…
— Não se iluda. Sou um modesto professor de piano.
— Quem vai decidir isso sou eu!
Apeamos diante duma dessas casas modernas, brancos sepulcros cúbicos lisos e frios. Atravessamos um jardim riçado de cactos em meio do qual avistei um velho conhecido: o anjo triste.
— Está vendo aquela coisa ali? — perguntou Adriana apontando para o anjo.
— Não tem nada a ver com esta residência funcional. Estava no jardim da casa onde o papai noivou com mamãe. Ora, o velho, que é um sentimentalão, mandou trazer o monstrengo para cá…
O interior da casa era claro, arejado, colorido e duma limpeza polida e impessoal, sem o menor traço de convívio humano. No canto do vasto living onde ficamos, havia um piano de cauda.
— Que pena o velho ainda não ter chegado! — lamentou Adriana. — Mas ele não demora…Apontou para o piano:
— Abanque-se e toque alguma coisa de sua autoria.
Obedeci. Comecei a tocar a sonata que compusera para a outra Adriana.
— Espere! — gritou a filha. — Eu conheço isso. Um momento… Saiu da sala e voltou pouco depois trazendo um papel de música amarelo no qual reconheci, comovido, a Sonata em Ré Menor. Lá estavam a dedicatória e a data, na minha própria letra.
— Esta música foi escrita em 1912 por um admirador de minha mãe. Agora explique-se, seu plagiário!
Encolhi os ombros.
— Perdoe-me. Devo ter ouvido essa melodia há muito tempo… e esquecido. Depois ela me voltou à memória e eu pensei que… Bom, essas coisas acontecem…
— Claro que acontecem.
Deu-me uma palmadinha tranqüilizadora no ombro e ofereceu-me depois um cigarro. Disse-lhe que não fumava. Ela acendeu o seu, tirou uma baforada, olhou-me bem nos olhos e murmurou:
— Engraçado, quando vi você lá no cemitério tive a impressão de que já o conhecia. Só não me lembro de onde…
— Pode ser.
Adriana bateu numa tecla dum modo que me lembrou dolorosamente a Outra. A sua voz perdeu a agressividade e fez-se doce e amiga quando me perguntou:
— Você acredita em pressentimentos?
— Sempre.
Adriana mirou-me com uma expressão enigmática. Depois, pousando a mão no meu braço, como se fosse uma velha amiga, disse:
— Fique tocando essa sonata enquanto eu vou buscar alguma coisa para a gente beber.Comecei a tocar. Esperei que a primeira frase da sonata tivesse o poder de conjurar a presença da minha Adriana. No entanto, o que ela trazia à minha mente era a imagem duma mulher vestida de verde, com uma braçada de junquilhos, o vento da Primavera a revolver-lhe os cabelos.
Senti então que agora, mais que nunca, eu corria o risco de perder para sempre o meu sonho. Veio-me um terror quase pânico do futuro.
Ergui-me, apanhei o chapéu, e saí daquela casa para sempre.


Érico Veríssimo