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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

DEZ ANOS SEM PLÍNIO MARCOS



DO BLOG DO BORTOLOTTO


Ontem a Folha de São Paulo comemorou os 10 anos da morte de Plinio MarcosE me pediram pra que eu repaginasse algum personagem dele tipo "o que o personagem estaria fazendo hoje". Eu escolhi o Vado da peça "Navalha na Carne". Imaginei o Vado com 70 anos. Na Folhapor um lance de espaço (eles pediram 2.500 caracteres e eu escrevi 3.300) a micro-peça foi publicada com alguns cortes que eu mesmo fiz pra evitar que cortassem por lá e em lugares errados comprometendo o fluxo dos díalogos e a pequena história que tentei contar. Aqui eu vou publicar como escrevi inicialmente. Pra quem tiver a fim de ler.



DEPOIS DE TODO O SUMO

Personagens :

Vado
Lúcio
César

(Vado está sentado na porta do bar. Está descascando uma laranja. É um velho mal encarado, por volta de 70 anos. Lucio se aproxima dele)
LUCIO :  Me disseram que você é o Vado.
(Vado continua descascando a laranja. Não olha para Lucio)
VADO : Quem quer saber?
LUCIO : Eu me chamo Lucio.
VADO : O seu nome não significa nada pra mim. Quem quer saber?
LUCIO : É que me disseram que você podia conseguir umas coisinhas.
VADO : Quem “disseram”?
LUCIO : Lá dentro do bar. Eles disseram. Fala com o Vado, aquele velho mal encarado lá fora. Ele pode te conseguir umas coisinhas.
VADO : Eles falaram assim, é?
LUCIO : Foi.
VADO : Eles me tem em alta conta.
LUCIO : (sem jeito) É.
VADO : (olhando pra Lucio) Que tipo de coisinha?
LUCIO : Do tipo que a gente cheira.
VADO : Eu cheiro muita coisa. Por exemplo, lá embaixo no meio das pernas da mulher...eu gosto de cheirar.Você não?
LUCIO : Não é exatamente o que eu tava pensando.
VADO : Eu só posso cheirar, sabe como é. Às vezes eu pago pra elas deixarem eu cheirar.  
(fica um tempo olhando Lucio sem falar nada)
LUCIO : E então?
VADO : Não.
LUCIO : Não?
VADO : Não.
LUCIO : Não o que?
VADO : Não tenho coisinha nenhuma.
LUCIO : Mas me falaram...
VADO : Eles te enrolaram.
LUCIO : Você sabe onde eu posso conseguir...
VADO : Não. Não consigo nem imaginar.
LUCIO : É sério isso?
VADO : Olha, rapaz...
LUCIO : Lucio.
VADO : Tanto faz. Só tô aqui fora descascando uma laranja. Não faço nem idéia do que você tá falando.
LUCIO : Mas você parecia...
VADO : Eu pareço um velho mal encarado. É assim que eles me vêem. E você pode achar que eu pareço o que você quiser. Não tô nem aí.
LUCIO : Acho que você não confia em mim, olha...
VADO : Você vai me contar a sua vida? Eu tenho certeza que conheço melhores. Não preciso conhecer a sua.  
LUCIO :  Ok, entendi. Vou tentar com outra pessoa então.
(Vado volta a descascar a laranja ignorando Lúcio totalmente)
LUCIO : Até logo, senhor Vado.
(Vado não responde. Lucio vai embora. Vado termina de descascar a laranja. Corta a tampa dela e começa a chupar e olhar para Lucio que está se afastando. César, um outro velho que  é o dono do bar sai lá fora e fica olhando para Vado)
CÉSAR : O que é que ele queria?
VADO : Cheirar alguma coisa, parece.
CÉSAR : Hummm.
VADO : Ele me contou que vocês disseram que eu era um velho mal encarado.
CÉSAR : Você não é nenhuma miss, né, Vado?
VADO : Eu já fui um cara bacana. Tive muitas mulheres. Elas me sustentavam.
CÉSAR : Eu já fui um super-herói. Salvava mocinhas indefesas de super-vilões e depois comia caviar com meu mordomo enquanto assistia meus super feitos no meu super aparelho de tv.
VADO : E o que foi que aconteceu com você?
CÉSAR : Nada demais. Eu envelheci.
VADO : Cafetões também envelhecem.
CÉSAR : Chupa sua laranja, Vado. Depois joga o bagaço fora. Não deixa por aí sujando a frente do bar, tá?
(César entra pra dentro do bar. Vado termina de chupar a laranja. Fica olhando pro bagaço sem parecer saber o que fazer com ele. Deposita cuidadosamente o bagaço no banco ao seu lado. Fica olhando para um lugar indefinido com expressão também indefinida. Luz cai)

Mário Bortolotto
Primavera de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PROCESSO COLABORATIVO, LUIS ALBERTO DE ABREU


RELATO E REFLEXÕES SOBRE UMA EXPERIÊNCIA DE CRIAÇÃO

Pode-se dizer que o processo colaborativo é um processo de criação que busca a horizontalidade nas relações entre os criadores do espetáculo teatral. Isso significa que busca prescindir de qualquer hierarquia pré-estabelecida e que feudos e espaços exclusivos no processo de criação são eliminados. Em outras palavras, o palco não é reinado do ator, nem o texto é a arquitetura do espetáculo, nem a geometria cênica é exclusividade do diretor. Todos esses criadores e todos os outros mais colocam experiência, conhecimento e talento a serviço da construção do espetáculo de tal forma que se tornam imprecisos os limites e o alcance  da atuação de cada um deles.
Esse processo desenvolveu-se ao longo do tempo, a partir das necessidades da cena e de problemas práticos percebidos em seu processo de construção, revelando-se uma forma de criação eficiente, rica e satisfatória do ponto de vista dos resultados artísticos alcançados. E esse sistema de criação polifônico, para utilizar o conceito fundamental de Bakhtin em seu estudo sobre a obra de Dostoievski, passa, agora, a exigir maior atenção, experiências mais aprofundadas e uma reflexão sistemática que possa servir como base e objeto de estudo para outros grupos e pessoas interessadas não só na análise, mas também na prática da criação teatral. É isso o que propõe esta reflexão.
Preferimos denominar essa experiência criativa e coletiva, que tem sido objeto de estudo e desenvolvimento na Escola Livre de Teatro, de Santo André, com o nome de processo colaborativo (e não método colaborativo) não só para preservar o caráter vasto e intuitivo da criação, como pelo cuidado, nunca desnecessário, de não objetivar excessivamente o fim pretendido. Não era, e nem é,  nossa pretensão estabelecer um conjunto de regras para levar a bom termo a criação de um espetáculo teatral. Sabemos por experiência que a criação artística, embora seja uma geometria racional possui elementos imponderáveis, e não queríamos proceder como se estivéssemos diante de um objeto de estudo apenas científico.  Isso não significa que o processo colaborativo abra mão alguns princípios norteadores, sem os quais os riscos do processo de criação cair num subjetivismo vazio são por demais evidentes. O que pretendemos com este artigo é balizar o caminho percorrido e abrir uma reflexão teórica sobre  uma prática já consagrada como bastante eficiente em nosso trabalho.

Breve histórico

O processo colaborativo provém em linhagem direta da chamada criação coletiva, proposta de construção do espetáculo teatral que ganhou destaque na década de 70, do século 20, e que se caracterizava por uma participação ampla de todos os integrantes do grupo na criação do espetáculo. Todos traziam propostas cênicas, escreviam, improvisavam figurinos, discutiam idéias de luz e cenário, enfim, todos pensavam coletivamente a construção do espetáculo dentro de um regime de liberdade irrestrita e mútua interferência. Era um processo de criação totalmente experimental, muitas vezes sem controle, cujos resultados, quando  havia, iam do canhestro ao razoável, com algumas boas, vigorosas e estimulantes exceções de praxe.  Esses bons resultados estimulavam a continuação da busca de um novo processo de trabalho criativo, principalmente porque resultados canhestros apareciam também no processo tradicional - o teatrão, como era chamado -e que se caracterizava por forte obediência ao texto teatral e por uma divisão de trabalho comandada pelo diretor.
A criação coletiva possuía, no entanto, alguns problemas de método. Um deles era a talvez excessiva informalidade do próprio processo. Não havia prazos, muitas vezes os objetivos eram nebulosos e se a experimentação criativa era vigorosa, não havia uma experiência acumulada que pudesse fixar a própria trajetória do processo. Era, ainda, uma abordagem da criação totalmente empírica que se resumia, muitas vezes, em experimentação sobre experimentação. Por outro lado, talvez  a ausência de alguém que pudesse organizar idéias, ações e personagens, todo material proveniente das improvisações num texto prévio - dramaturgos eram escassos na época -  fez com que o diretor comumente concentrasse em suas mãos e em sua ótica, o resultado, a "amarração final", como se costumava dizer. Isso fazia com que o processo perdesse, em determinado momento, seu caráter coletivo, assumindo a visão, ou a proposta de seu diretor. Nesse caso, se anteriormente o grupo dependia totalmente de como o dramaturgo pré-organizava o espetáculo através do texto - o que acontecia no processo tradicional -, agora o coletivo também corria o risco de ter um outro criador que, isoladamente, cumpria essa função, o que fazia com que o ideal de um coletivo criador não se cumprisse integralmente.
Questão igualmente importante era que a criação coletiva, em sua proposta de dar voz  e direitos a todos os criadores,  muitas vezes conduzia o resultado artístico a uma somatória das criações dos indivíduos, muitas vezes sem síntese e clareza. A ferocidade da crítica da época convencionou comparar alguns desses espetáculos a festas escolares de final de ano.
Durante os anos 1980, a aventura de chegar a uma criação coletiva que se pudesse contrapor ao sistema funcionalista vigente pareceu esgotar-se dentro de suas próprias contradições. Por sua vez o diretor assumiu de vez o papel de condutor do processo da criação teatral, substituindo, muitas vezes, o dramaturgo como geômetra das ações e pensador do corpo de valores éticos e estéticos do espetáculo. Ao contrário do que possa parecer, este foi um momento bastante rico para a cena brasileira. O diretor não se resumia mais a simples montador de textos. Libertos da servidão à escrita do dramaturgo, os encenadores tornaram-se os verdadeiros criadores do espetáculo, fazendo avançar a pesquisa cênica a limites até então inexplorados. Quando não criavam os próprios textos onde se assentavam os espetáculos, apropriavam-se da dramaturgia de autores clássicos ou contemporâneos como suporte para sua criação, remodelando, cortando, fundindo cenas, muitas vezes dando outra configuração ao trabalho original do dramaturgo. Resultados belíssimos, originais e contundentes foram criados a partir da arquitetura cênica. No entanto, um processo coletivo de criação continuava solicitando reflexão e aprofundamento. Se o processo de criação convencional havia encontrado seu equilíbrio baseado na hierarquia representada pelo texto e na especialização das funções, a busca de um processo coletivo eficiente continuou seu percurso a procura de respostas aos problemas que sua ausência de método apresentava.
O que chamamos hoje de processo colaborativo começou a se aprofundar no começo dos anos 1990 . O Teatro da Vertigem, de São Paulo, dirigido por Antonio Araújo, e a Escola Livre de Teatro de Santo André, são referências na busca da horizontalidade de relações artísticas entre seus integrantes. Experiências foram desenvolvidas, dentro do âmbito da Escola Livre, por criadores como Tiche Vianna, Cacá Carvalho, Antonio Araújo, Luis Fernando Ramos, Luís Alberto de Abreu, Francisco Medeiros e outros, na busca de refletir e desvendar  alguns princípios que pudessem ordenar um trabalho de intensa criação e ao mesmo tempo sem hierarquias fixas e desnecessárias.   

Um novo olhar

O processo da construção do espetáculo de forma partilhada por vários criadores levou, logo de início, à necessidade da revisão de uma série de conceitos relacionados à arte teatral. Percebeu-se, logo a princípio, que esse novo processo de criação não poderia conviver com o subjetivismo exacerbado que comumente acompanha o trabalho artístico. Num processo de criação partilhada não há muito espaço para "minha cena", "meu texto", "minha idéia". Tudo é jogado numa arena comum e  examinado, confrontado e debatido até o estabelecimento de um "acordo" entre os criadores. É claro que esse acordo não significa reduzir a criação ao senso comum, nem transformar o vigor da criação artística num acordo de cavalheiros. É um acordo tenso, precário, sujeito, muitas vezes, a constantes reavaliações durante o percurso. Confrontação (de idéias e material criativo) e acordo são pedras angulares no processo colaborativo.
O principal conceito a se fazer revisão diz respeito ao próprio entendimento do fenômeno teatral. O princípio norteador do processo colaborativo é o conceito de que teatro é uma arte efêmera que se estabelece na relação do espetáculo com o público. A concepção de que o fenômeno teatral só existe enquanto relação espetáculo/público foi o primeiro passo para conduzir uma série de conflitos subjetivos para um campo objetivo. Teorias, visões estéticas, impressões, sentimentos, informações, todas esses elementos que são trazidas por atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos, figurinistas e outros criadores, para a arena do processo de criação tinham agora referenciais concretos: o espetáculo e o público.

Aparentemente situar o fenômeno teatral na relação efêmera do espetáculo com o público é uma obviedade. No entanto, essa obviedade produz profundas mudanças. De um lado recoloca o público como elemento importante a ser levado em conta no processo de criação. De outro,  afasta a ilusão narcisista de que toda complexidade do fenômeno teatral possa ser reduzida um único artista (seja ele dramaturgo, diretor, ator ou outro qualquer). Arte teatral, dentro desse conceito,  não é apenas expressão do artista (qualquer que seja ela), mas uma complexa relação entre a expressão do artista e o publico.   A essa concepção parecem estranhas tanto as definições do teatro como a arte do ator quanto texto dramatúrgico ou geometria cênica. É claro que o eixo principal de um espetáculo pode ser o dramaturgo, o diretor, o ator, o cenógrafo ou outro criador, mas nenhum deles, isoladamente, define a totalidade do fenômeno teatral, que permanece por sua própria história e maneira de ser uma arte coletiva feita para ser partilhada por um outro coletivo, o público.

A re-introdução do público como valor a ser considerado num processo de criação artística é assunto complexo e que pede reflexão maior que não cabe no momento. Por ora, basta levantar que o público, em geral, não tem sido incluído como elemento fundamental nas discussões estéticas. É considerado, em geral, apenas, como destinatário passivo das formulações estéticas estabelecidas nas salas de ensaio, reduzido a mero observador da expressão do artista ou simples "pagante" de um entretenimento. No entanto, o público é o elemento que traz ao artista não só o pulso da contemporaneidade como é o fio que o conduz ao universo de sua própria cultura. A cultura, o tempo e o espaço histórico tornam-se lastro do fazer artístico, o que contribui para evitar o mero formalismo, comum em processos artísticos afastados do contexto cultural. Mas nosso objeto de reflexão é a gênese e os princípios norteadores do processo colaborativo. A ele voltamos.

O processo colaborativo se propõe basicamente a romper as fronteiras, quebrar os espaços privativos de criação na construção do espetáculo. Isso é proposto não por razões morais, por mera opção por um discurso igualitário, mas por razões práticas: o processo colaborativo tem-se mostrado eficiente como resultado artístico.

Situar o foco da criação na relação do espetáculo com o público pode ser uma decisão benéfica, mas por si só não garante o resultado pretendido. São necessários outros elementos norteadores para a condução do processo. Dado que o objetivo em vista é algo concreto - a construção do espetáculo - é óbvio que o primeiro elemento norteador deve ser também algo concreto: a cena.
Antes de se chegar à cena, porém, existe todo um trabalho de definição de tema, mote ou assunto do espetáculo,  pesquisa teórica ou de campo e, mesmo, discussões das primeiras imagens, idéias, improvisações dos atores ou de textos da dramaturgia. Após esse período exploratório, onde todo material de pesquisa é tornado comum a todo o grupo,  cabe à dramaturgia propor uma estruturação básica das ações de ações e personagens. Damos a essa estruturação o nome de canovaccio, termo que, na Commedia dell'Arte, indicava o roteiro de ações do espetáculo, além de indicações de entrada e saída de atores, jogos de cena, etc. Embora o canovaccio seja responsabilidade da dramaturgia ele não se constitui em mera "costura" das propostas do coletivo, nem uma visão particular do dramaturgo. É a resultante de todo o trabalho preparatório organizado em propostas de cenas. No canovaccio as improvisações, propostas de cena, imagens e conceitos do espetáculo, todo o trabalho anterior já aparece estruturado. O canovaccio contém, de forma embrionária, uma visão possível do espetáculo. E, como nada é permanente no processo colaborativo o canovaccio vai à discussão para aperfeiçoamento e possível reformulação.

A cena

A trajetória do processo colaborativo, como de resto em qualquer processo criativo, vai do abstrato ao concreto e do subjetivo ao objetivo, da intuição e do material informe presente no criador até o material objetivo e comunicável. Isso significa que uma idéia clara tem um peso significativamente maior do que uma sensação difusa e que uma imagem nítida, perfeitamente comunicável, tem valor maior do que do que uma idéia ou uma sensação. É importante essa trajetória em busca do concreto e do objetivo para que o processo não se dilua no perigoso prazer da discussão intelectual ou na confrontação de impressões e sensações imprecisas.  Todo material criativo (idéias, imagens, sensações, conceitos) devem ter expressão na cena. A cena, como unidade concreta do espetáculo, ganha importância fundamental no processo colaborativo. Ela é o fiel da balança e, como algo concreto e objetivo, é hierarquicamente superior à idéia, à imagem, ao projeto, às visões subjetivas. Esse dado é importante para que um simples argumento bem conduzido ou uma idéia bem engendrada não possam destruir a organização de uma cena que, mesmo ruim, custou trabalho e esforço dos criadores. A idéia bem engendrada ou o argumento bem conduzido devem transformar-se em cena. uma nova cena tem o poder de refutar a cena anterior. Essa é uma regra geral no processo colaborativo: tudo deve ser testado em cena, sejam idéias, propostas ou simples sugestões.
É importante ressaltar que consideramos cena não a unidade acabada mas qualquer organização de ações proposta por atores, diretores ou dramaturgos (A cena escrita tem o mesmo valor da cena interpretada!) e qualquer uma delas deve ser testada no palco ou sala de ensaio antes de ser refutada ou modificada por acréscimos ou cortes.
Se idéias, propostas verbais e avaliações não têm o poder de inviabilizar uma cena construída no papel ou no palco, esta, ao contrário, tem o poder de modificar o canovaccio, aprofundar o tema ou até provocar uma revisão na abordagem do assunto escolhido. Canovaccio, embora seja um ganho importante no processo de organização do trabalho criativo, não é lei a ser cumprida à risca. É uma proposta que visa insuflar ainda mais a criação e só esta, expressa na cena, tem o poder de efetuar mudanças.


A crítica

O processo colaborativo é dialógico, por definição. Isso significa que a confrontação e o surgimento de novas idéias, sugestões e críticas não só fazem parte de seu modus operandi como são os motores de seu desenvolvimento. Isso faz do processo colaborativo uma relação criativa baseada em múltiplas interferências.
E aqui começamos a pisar em terreno minado porque esse processo de criação busca também preservar o terreno da criação individual. Como conciliar, então, o aparente paradoxo de fomentar o impulso criativo dos indivíduos dentro do grupo e ao mesmo tempo preservar a permeabilidade das idéias? Como promover o livre trânsito da criação entre os participantes sem eliminar a demarcação dos territórios de criação? Até que limite o ator pode interferir na dramaturgia, o dramaturgo pode interferir no conceito da encenação e assim por diante? Não é possível demarcar os limites dessa interferência. Mais: acreditamos que essas fronteiras não podem nem devem ser delimitadas. A maneira como essa interferência se dá vai depender do grau de amadurecimento do grupo e da confiança entre os envolvidos no processo.
Dentro do processo colaborativo a interferência na criação alheia é um momento extremamente delicado, pois se na fase de confrontação de idéias o trabalho corre normalmente o mesmo pode não acontecer quando existe interferência no material criativo do companheiro. Talvez este seja  o principal foco de tensão no processo colaborativo, porém, sem a liberdade dessa interferência o processo colaborativo não se estabelece.
Para superar e transitar com mais desenvoltura nesse momento fundamental do processo é necessário que se preserve as funções de cada artista. De um lado existe total liberdade de criação e interferência, mas de outro é vedado a um criador assumir as funções  do outro. Ou seja, um ator pode discutir, sugerir mudanças, propor diálogos ou até mesmo escrever uma cena, no entanto é o dramaturgo que deverá fazer a organização desse material. Da mesma forma é vedado ao dramaturgo assumir funções da direção ou da interpretação embora se preserve a liberdade de mútuas interferências. Nesse sentido, a responsabilidade de cada um alcança não só sua área específica de criação, mas também colabora na área do parceiro.
A interferência é algo bastante delicado e requer um certo método não só para não ferir suscetibilidades, mas, principalmente, para que essa interferência se torne ferramenta eficiente e construtora na criação. Dentro do processo colaborativo a interferência mais aguda e necessária é a crítica. E ela deve se dar de forma especial.

O desenvolvimento de um olhar crítico sobre o próprio trabalho e sobre o trabalho do companheiro é condição fundamental para o desenvolvimento do processo. No entanto, olhar crítico não significa, em absoluto, uma simples avaliação estética sobre o trabalho alheio.É muitíssimo mais que isso, é um olhar criativo sobre a criação alheia
Em primeiro lugar, o direito à crítica poderá ser exercido somente pelos criadores envolvidos. Os resultados têm sido desastrosos quando pessoas afastadas do processo de criação, por mais competentes que sejam, são chamadas para opinar. Afastadas do processo, desconhecendo os objetivos pretendidos ou o esforço empreendido pelos criadores, essas pessoas tendem, naturalmente, a analisar o que vêem como resultados e não como "algo em perspectiva", como imagens, formas e cenas em progresso, sujeitas, muitas vezes, a radicais transformações. O olhar de pessoas alheias ao processo é evidentemente útil e necessário quando o trabalho já se encontra em sua fase final, mais sólido, e os criadores menos inseguros,.
Essa talvez seja a primeira característica necessária da crítica no processo colaborativo: ela tem de ser feita em "perspectiva", ou seja, conhecer e levar em consideração o objetivo que o criador procura alcançar, afastando-se da simples avaliação de resultados.
Outra característica da crítica é sua objetividade. Comentários vagos, impressões difusas ou subjetivas, enfim, todo um conjunto de expressões imprecisas ou metafóricas devem ser banidas por serem inúteis e não contribuírem em nada para a compreensão dos problemas existentes no material criado. A crítica, como o olhar racional sobre o material criado, deve ser ampla, completa, profunda e objetiva. Mas, dentro do processo, colaborativo isso ainda não é o bastante. Se não é fácil identificar de forma objetiva o problema existente na cena ou não improvisação e, após isso, discuti-lo e aprofunda-lo, ao cabo de tudo, é imprescindível que o crítico traga propostas para solucionar o problema. É somente neste momento que a crítica transcende a mera avaliação e se insere no caudal criativo do grupo, tornando-se um dos fundamentos da criação. A crítica, nesse sentido, agrega ao seu conteúdo racional, um esforço de criação, um valor sensível e intuitivo. Isso faz com que o momento da crítica, no processo colaborativo, seja ansiosamente esperado, pois é o momento quando há todo um esforço coletivo de avaliar, discutir e oferecer soluções e caminhos.

Conclusão

O universo da criação é consideravelmente vasto e dentro dele cabem inúmeros processos que podem conduzir ao um número igual de resultados estéticos consistentes. O processo colaborativo é não é mais do que um entre eles, nem pior nem melhor, nem ao menos é um processo exclusivo. Artistas há que transitam por vários processos de criação e grandes obras têm sido criadas de forma solitária por artistas, da mesma forma que resultados medíocres podem ser construídos de forma partilhada entre muitos participantes. Reiteramos que o processo colaborativo não é método de se criar um bom espetáculo. Para isso não existem fórmulas nem métodos e na criação só sabemos como entramos nela e não como dela vamos sair. O que não quer dizer,é evidente, que todos os processos são igualmente bons e igualmente válidos. Um processo está intimamente relacionado ao fim desejado. É o fim vislumbrado que nos leva a planejar os meios de alcançá-lo. O processo colaborativo tem se revelado altamente eficiente na busca de um espetáculo que represente as vozes, idéias e desejos de todos que o constroem. Sem hierarquias desnecessárias, preservando a individualidade artística dos participantes, aprofundando a experiência de cada um, o processo colaborativo tem sido uma resposta consistente para as questões propostas pela criação coletiva dos anos 1970: uma obra que reflita o pensamento do coletivo criador.


                                                                  Luis Alberto de Abreu

Artigo publicado nos Cadernos da ELT - número 2,  junho/2004, revista de relatos, reflexões e  teoria teatral, da Escola Livre de Teatro de Santo André. 


A RESTAURAÇÃO DA NARRATIVA, LUIS ALBERTO DE ABREU

ABSTRACT
O texto lança alguns elementos de raciocínio sobre o processo histórico de distanciamento dos valores públicos e privados e de como isso afetou profundamente não só a geometria da cena como alterou e limitou as funções de seus criadores e a relação espetáculo/público. E propõe um reequilibrio dos elementos épicos e narrativos, fundamentais na arte teatral, como uma das formas de busca da restauração da unidade entre espetáculo e público.

Sempre admirei o surpreendente processo que leva um paleontólogo a refazer, a partir de um fragmento de osso, não só toda a ossatura de um animal pré-histórico como seu aspecto, hábitos, costumes, o meio em que viveu e uma multidão de informações sobre aquele espécime. Guardadas as devidas proporções é como um fascinante jogo de investigação policial onde um pequeno e significativo detalhe se compõe com inúmeros outros, formando uma geometria que nos dá o rosto do criminoso, o aspecto de um animal ou o retrato de uma sociedade. Penso que foi por causa desse fascínio que me habituei a querer ler sinais e me tornei dramaturgo. Dramaturgia não é mais do que ler sinais por trás de uma ação ou de uma expressão humana. Em Medéia, Eurípedes nos revela um universo profundamente humano a partir de um crime bárbaro. O mesmo faz Ibsen que, a partir de uma pequena nota de página policial constrói Casa de Bonecas, um texto fundamental na moderna história da dramaturgia.
Foi a capacidade de ler sinais, imagino, que levou Mikhail Bakhtin, a escrever "Cultura popular na Idade Média e no Renascimento", um livro que considero fundamental para qualquer dramaturgo ou estudioso ligado a teatro ou não[1]. Nele, o filólogo russo, a partir de um sinal (o riso) discute, entre outras coisas, todo o processo que levou a sociedade a transitar de uma forte noção de corpo social presente na Idade Média à afirmação de corpo individual como noção predominante no período do Romantismo. No bojo dessa transformação (e isso já é dedução minha), valores, procedimentos, ações, imagens, histórias coletivas perdem a importância em relação a valores, procedimentos, ações, imagens e histórias individuais.

Foi também a tentativa de ler sinais que me levou a prestar atenção na organização urbana das cidades coloniais brasileiras e no que elas têm em comum tanto com o estudo de Bakhtin quanto com a questão proposta no título dessa reflexão: a restauração da narrativa.

Nas cidades coloniais brasileiras as moradias eram construídas segundo um padrão determinado. Suas portas abertas durante o dia e apenas cerradas à noite, suas janelas sem trancas, davam acesso direto à rua ou à praça e vice-versa, sem espaços intermediários entre o domínio público e o privado. Portas e janelas, mais do que instrumentos de iluminação, arejamento ou segurança tinham o valor simbólico de proporcionar o acesso fácil, livre de embaraços ao espaço íntimo e privado da casa. O portal da casa permitia o fluxo constante de informações, a relação estreita entre o mundo público e o privado.

As moradias atuais são construídas de acordo com um padrão diferente. Entre a soleira da casa e a rua, estabeleceram-se quintais, calçadas, muros, portões, grades, lanças, cacos de vidro, interfones. As explicações para essas diferenças na maneira das pessoas se relacionarem com o espaço urbano, com certeza, vão além de razões de segurança. A relação íntima entre os espaços físicos público e privado, sugerida pela urbanização "caótica" daquelas cidades (ruas de traçado tortuoso em razão da distribuição das casas, moradias desalinhadas que avançavam sobre a via pública, ruas sem saída que terminavam abruptamente numa porta de residência) indica que a mesma indefinição de fronteiras se estabelecia nos mais variados níveis das relações humanas. E, em especial, na cultura. No interior de uma noção forte de "corpo social" estabelece-se um imaginário comum de mitos, crenças, histórias, memória, etc. É do interior desse imaginário comum, público e permeável, que ao mesmo tempo em que invade a memória e os valores do indivíduo, abriga e agrega suas contribuições, que as pessoas extraíam o material para suas expressões simbólicas - ritos, mitos, arte. É foi de dentro de um imaginário e de experiências tornadas comuns que floresceu a narrativa como transmissora de conhecimento e, mais importante, de experiências individuais para o repertório coletivo. Qualquer alteração em quaisquer dos planos - o concreto e o simbólico - provoca alteração na forma de expressão humana. Esse é o raciocínio do filósofo Walter Benjamin, em seu ensaio primoroso "O Narrador - Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov" [2], onde analisa a decadência da forma narrativa a partir das relações concretas do homem e o trabalho. A decadência da narrativa está intimamente ligada à decadência do imaginário comum.

O IMAGINÁRIO
Não existe experiência coletiva. Existem acontecimentos, fatos coletivos, como a guerra, peste e morte que em determinado momento podem atingir indivíduo ou sociedade como um todo. No entanto, a experiência de cada um desses acontecimentos só pode ser absorvida individualmente. O que não quer dizer que uma experiência não possa ser compartilhada, imaginada, comunicada e sensibilizada. Ao contrário, é de fundamental importância que toda experiência humana significativa possa ser comunicada tendo em vista a criação de um repertório comum de experiências, material básico para o desenvolvimento de uma consciência coletiva. E consciência coletiva é o que plasma o surgimento de um destino comum. E destino comum é o que orienta e dá forma ao que chamamos de comunidade, cidadania ou nação.

Essa transmissão de experiências individuais para a esfera coletiva dá forma ao que chamamos "imaginário". Um imaginário - repertório de imagens comuns a uma cultura e, em decorrência, de histórias, tipos, crenças, conceitos e comportamentos - é necessariamente uma criação coletiva. Mais, um imaginário é determinado por condições objetivas, sociais, históricas. Ou seja, não há a possibilidade de um indivíduo criar uma imagem fora do imaginário de seu meio. Por exemplo, na Idade Média seria possível haver um herege mas nunca um ateu dentro daquele imaginário totalmente religioso. O que não quer dizer que o imaginário não seja algo profundamente dinâmico. Cabe ao artista, ao homem criador, perceber, nas condições objetivas do processo histórico e social, as possibilidades de surgimento de novas imagens e dar luz a novas histórias, idéias, crenças, que vão integrar o imaginário de sua época.

Juntando as coisas todas: o fato de as casas coloniais serem voltadas para as ruas e praças; a gradativa perda, através dos séculos, da noção de corpo social; a necessidade de compartilhamento de experiências (individuais) para a constituição de um imaginário (coletivo), tudo isso, creio, tem relação direta com o tipo de arte que fazemos e, em especial, com a dramaturgia.

Antes, porém, é necessário esclarecer que o processo de perda da noção de corpo social não é, por si só, negativa. Ao contrário, correspondeu à abertura do fantástico caminho de fortalecimento da noção de indivíduo e decorrentes noções de independência, liberdade individual, humanismo. O gradativo afastamento do homem da natureza e do corpo social, o homem que se sabe diferente e isolado, que tem um destino próprio, quase desenraizado de seu meio, fez derivar a história da civilização para outro rumo. O Davi, de Michelângelo, com seu semblante pensativo e algo aflito, como se carregasse o peso de seu próprio destino, é tido como um marco no processo que haveria de colocar o homem no centro da História e da criação. Na dramaturgia, Hamlet, de Shakespeare, é igualmente considerado o protótipo do homem moderno, um homem em conflito, envolvido com a pesada herança de seus pais e que oscila, indeciso, na busca um novo caminho. Essas duas imagens iluminaram o caminho da afirmação do indivíduo perante a natureza e o corpo social.

A questão que se coloca é se não é necessário, hoje, avaliar ambos os caminhos (o público e privado, indivíduo e corpo social, criação individual e imaginário) e talvez equilibrar novamente os elementos. A questão se coloca porque, no âmbito do teatro, foi o progressivo isolamento do indivíduo de seu meio que possibilitou o fortalecimento e subseqüente predominância de um gênero de invejável poder dramático, mas significativamente frágil no que se refere à apreensão do mundo real. A predominância do melodrama, como veremos mais adiante, determinou o afastamento dos conteúdos narrativos antes fortemente presentes no teatro.

DA TRAGÉDIA AO MELODRAMA
Talvez a perda de um imaginário onde os homens possuíam bravura heróica, coragem e habilidade para afrontar os grandes desafios da existência, diminuiu em nós mesmos a capacidade de nos reconhecermos com tais valores. E se isso é verdade, diminuiu bastante em nós esses poderes. Mais precisamente diminuiu nossa capacidade de reconhecê-los em nós próprios.

Parece haver relação direta entre o enfraquecimento da capacidade de luta, força moral e grandeza dos objetivos dos personagens e o progressivo abandono do gênero trágico e a conseqüente adoção do melodrama como gênero preferencial no século passado. Preferência esta que permanece até os dias de hoje. Não creio que caiba estabelecer juízo de valor sobre assunto. Os gêneros todos, da farsa ao melodrama, passando pelo drama e pela tragédia, são importantíssimos enquanto revelam esferas da alma e dos conflitos humanos com vigor e propriedade que os tornam insubstituíveis. Se a afirmação da noção de indivíduo foi um bem inestimável para o ser humano o mesmo se pode dizer do desenvolvimento e aperfeiçoamento de novos gêneros como o drama e o melodrama. A questão que se coloca é o que perdemos nesse processo.

Visto sob a ótica da mitologia, o melodrama, está relacionado a uma mentalidade adolescente. Nada de negativo nisto se não considerarmos a adolescência uma experiência humana negativa - tanto a adolescência quanto o melodrama estão relacionados à aquisição dos sentimentos e força. Na mitologia, o herói adolescente porta uma pequena faca (não uma espada que é símbolo do herói-guerreiro adulto) e sai pelo mundo. É ajudado por um parceiro poderoso e não humano e está sujeito ao acaso e às forças mágicas ( na trajetória adulta -drama e tragédia- o herói depende fundamentalmente de si e seu destino é determinado pela sua ação). Nas trajetórias míticas relacionadas ao herói adulto não existe o acaso, elemento fundamental no melodrama (doenças repentinas, golpes da sorte são acontecimentos que tem forte interferência num melodrama).

Ao contrário do drama e da tragédia, o herói do melodrama é necessariamente uma vítima. Despossuído de força, ele sucumbe à ação dos elementos externos, de vilões e vilãs, é incapaz de suplantar os limites das leis e da moral. Não investe contra e nem consegue se libertar do poder da família ou da sociedade. Muitas vezes é incapaz de perceber que a origem de seus males é social. Em geral, o herói melodramático não vai além de seu quintal, não vai além de relações familiares e humanas de pouca profundidade. Digo em geral porque algumas peças desse gênero tratam os sentimentos humanos de forma profunda e verdadeira, tornando, em minha opinião, obras primas, apesar de não descerem às vastas complexidades da tragédia ou do drama. Personagens trágicos como Electra e Orestes matam Clitemnestra, sua mãe; Dr. Stockman, personagem dramático de "O Inimigo do Povo", de Ibsen, abre luta aberta contra seu próprio irmão e contra a sociedade; Nora , protagonista do drama "Casa de Bonecas", também de Ibsen, abandona marido e família. Mas a família Tyrone, no primoroso melodrama "Longa Jornada Noite Adentro", de Eugene O'Neil, decai e sofre sem identificar a origem de seus males.[3] Encerrados dentro de seu próprio mundo individual, os heróis melodramáticos desconhecem as forças da terra, do mundo e das ruas dos quais ele se exilou. Enquanto os heróis trágicos chegam ao mundo como "heróis de cultura", personagens que vão transformar o mundo, derrogar velhas leis e trazer novas, lutar decididamente contra a herança e imagens dos pais e das tradições do clã ou da sociedade, o enfraquecido herói melodramático sucumbe a um mundo que desconhece e a leis morais e regras sociais que não consegue mudar. O mundo é algo misterioso e assustador, um "sistema" indecifrável, e o palco de luta do herói melodramático não é o mundo caótico ou a sociedade organizada sob leis opressoras e injustas. O universo de luta do herói melodramático é o dos seus sentimentos. E esses sentimentos são limitados pelas leis, pelos preceitos religiosos e pelos bons costumes. E, ainda mais, poderíamos dizer que, embora os sentimentos sejam o elemento fundamental do melodrama esse gênero sobrevive principalmente não do exercício dos sentimentos mas de sua negação. Os heróis dramáticos ou trágicos vivem os sentimentos com toda a intensidade e, muitas vezes, são punidos exatamente por isso, pelo descomedimento, pela falta de medida com que o vivem. Os heróis melodramáticos "tentam" viver seus sentimentos sem conseguir alcançá-los, seja por acidente, pela ação do vilão ou por fraqueza moral.

Ao perder o contato com a praça, com as ruas, com a comunidade, enfim, o homem perde seu imaginário, abandona a fonte de sua cultura e diminuem-se consideravelmente a quantidade e a qualidade das experiências que podem ser comunicadas. Seu repertório de imagens, sem o acréscimo das imagens apreendidas no contato e conflito com outros homens, reduz-se àquelas geradas apenas a partir de si próprio (os sentimentos) e advindas no contato e conflito com seu reduzido meio familiar e círculo social (moral). Os próprios sentimentos sem o sadio conflito com a complexidade do mundo real tendem a permanecer na superfície ou a se tornar idealizados. Ao abandonar as ruas o homem diminui substancialmente sua capacidade de aprender. O saber distancia-se do sentir.

É bem característico que nossa época tenha especial predileção pelo melodrama. É um gênero que retrata fielmente a perplexidade da maioria de nós com um mundo que não mais conhecemos. Um mundo complexo, vil, caótico, violento e inimigo, do qual nos afastamos para o aparente porto seguro de nossa casa e dos nossos sentimentos (desde que não escavemos esses sentimentos até as profundidades abissais dos instintos). Que distância enorme do drama ou da tragédia em que os personagens investem em direção ao mundo para transformá-lo em algo possível de ser ordenado e habitado!

A CRISE
Desde que comecei minha carreira profissional como dramaturgo, há vinte anos, ouço falar em crise. Hoje me pergunto se é possível fazer arte em qualquer lugar do mundo sem crise. Isso não quer dizer que tenha me habituado a ela, mas que a considero elemento fundamental do processo criativo, situada no mesmo nível de importância da observação, da reflexão, da atenção ou da intuição. A crise norteia e nos faz mais espertos.

É interessante verificar que o afastamento da íntima convivência entre o público e o privado, o indivíduo e a cultura, expresso nas moradias das antigas cidades, é um símbolo que oculta mudanças muito expressivas nas relações humanas e artísticas. A perda do imaginário levou a danos que somente agora começam a ser percebidos de forma evidente. Por exemplo, a tão comentada crise relacionada ao fluxo de público no teatro, cinema, literatura e outras artes, é uma dessas evidências. Obviamente, a crônica crise determinada pela falta de interesse do público pela produção cultural tem múltiplas e importantes raízes. São levantadas desde razões históricas até a quase nula sensibilidade das instituições governamentais em incentivar o acesso da população aos bens culturais; o peso da mídia e os interesses da indústria cultural, entre outras. Todas essas razões possuem sólidas justificativas. Mas uma razão pouco aventada, e, talvez a mais importante, seja a que explica que o desinteresse do público se deve ao fato de que talvez a produção cultural não esteja falando a mesma língua que ele, nem veiculando as imagens extraídas de um imaginário comum. Talvez a grande aventura da busca da individualidade iniciada no Renascimento tenha se exacerbado de tal forma a ponto de esquecermos da existência de um corpo social, de um imaginário cultural. Talvez o artista tenha renunciado a ser o meio de expressão das variadas experiências humanas para expressar a si próprio. Talvez o artista tenha aberto mão de expressar o mundo e a vida para expressar o próprio mundo e os próprios sentimentos. E talvez o próprio mundo e os próprios sentimentos não sejam assim tão importantes. Pelo menos para o público. Não que a totalidade da produção cultural atual seja apenas feita de considerações em torno do umbigo de seus próprios realizadores. Ao contrário, percebe-se em grande parte da produção artístico-cultural um empenho decisivo em questionar e encontrar formas de comunicação mais eficientes com o público. A pergunta é se essas formas eficientes não estão intimamente ligadas à recuperação de um imaginário comum.

RESTAURAR A NARRATIVA
O longo e lento processo de afirmação dos valores do indivíduo alcança até os dias de hoje. E se, durante esse processo, houve época em que tanto os valores coletivos quanto os do indivíduo conviveram, hoje, está claro, existe uma sobrevalorização dos valores individuais em detrimento dos outros. E, paradoxalmente, é na época da chamada cultura de massa que a noção de indivíduo se impõe de maneira tão avassaladora. Ou talvez o próprio conceito de "massa" como agrupamento infinito, amorfo e semiconsciente de seres propicie a sobrevalorização do indivíduo. O apelo da propaganda é para que o indivíduo se destaque da massa amorfa! Isso só pode ser feito apoiando-se e reafirmando em si, ad infinitum, a noção de indivíduo em contraposição à massa informe. Sem pretender aqui discutir o conceito de massa - para mim no mínimo uma impropriedade -, o fato é que, neste fim de século, o poder transformador da arte parece ter se esgotado e seus caminhos parecem ter conduzido a becos sem saída. Parece que enquanto as populações aumentam geometricamente dinamizando de maneira aguda as relações sociais, inversamente as manifestações artísticas vêem minguar seus públicos e, como que excluídas do poderoso processo que movimenta a sociedade contemporânea, recolhem-se a seus guetos com suas diminutas platéias.
Fato característico e, a meu ver, revelador do distanciamento entre espetáculo e público é a perda que o teatro vem sofrendo, nos últimos três séculos de seus conteúdos narrativos. O que era elemento constitutivo do espetáculo entre os gregos ou mesmo na época de Shakespeare hoje se limita a resquícios, praticamente. Uma ou outra reminiscência deste ou daquele personagem nos informam que a narrativa também está presente num espetáculo, como um apêndice de que, se não estiver inflamado, não se percebe a existência. O fato é que os conteúdos narrativos numa peça teatral não são apenas elementos estilísticos e sua perda corresponde a um prejuízo tão gigantesco que chega quase a descaracterizar a arte teatral. Atualmente tomamos arte dramática como sinônimo de arte teatral esquecendo-nos de que a arte da narrativa sempre teve lugar marcante na arte teatral. E, dada a importância da conjugação dessas duas artes no teatro creio ser útil abrir um parêntese para a discussão desse tema.

O "ONTEM" E O "AQUI E AGORA"
Existem, a meu ver, dois elementos fundamentais que estruturam o que se convencionou chamar fenômeno teatral. E não é coincidência que esses mesmos elementos estejam também presentes tanto no mito quanto no rito religioso: o aqui e o agora. Teatro é uma arte efêmera e presente e isso quer dizer que sua existência se dá no momento em que o espetáculo acontece em sua relação com o público. Terminado o espetáculo, terminou a arte teatral. Teatro é uma arte que só tem existência em seu momento presente. Isso parece uma obviedade, mas é sua própria essência. Teatro é a ação presente, a emoção presente, o ator e o público presentes. Teatro não é simplesmente uma história contada, é uma experiência viva, na definição de Eric Bentley. Sensações como êxtase, gozo, catarse, emoções, alheamento, vivência além do concreto da existência, são elementos necessariamente presentes tanto no rito religioso quanto no mito ou no teatro. Com uma grande diferença: embora a experiência viva, o "aqui, agora" defina o teatro, há outro elemento que o separa tanto da religião quanto do mito e lhe dá outra geometria e alcance. Teatro, embora seja um bem do espírito é também algo profano, concreto, onde o êxtase é algo comedido, onde as alturas das emoções - que podem não ter limites no rito religioso - são circunscritas ao mundo real. No teatro, o contato com o espiritual não é um fim em si, como no rito religioso o contato com a divindade é o objetivo final. No teatro, e não falamos apenas do teatro grego, o êxtase necessita de um sentido, um lógos, uma razão. Ouso até refletir que o lógos também está presente nas religiões, afinal existem a doutrina, os preceitos e se não existissem, existe a organização, a geometria do rito. Religião e arte, no entanto, abrigando os mesmos elementos possuem objetivos opostos: o lógos na religião visa ao êxtase, ao contato com o divino, à teofania. Na arte, o êxtase é código de acesso ao logos, ao re-conhecimento da trajetória humana. Teatro é também uma forma de saber.

Reflito que se a ação teatral no geral e os diálogos, no particular, dizem respeito ao presente, à re-presentação, ao "aqui, agora", a narração diz respeito aos fatos acontecidos, ao ontem, ao passado. Bem, fatos acontecem em determinado lugar e em determinada época. Por conseqüência, o universo preferencial da narração é o universo histórico, o tempo e os acontecimentos concretos da história do homem. E, nesse sentido, a narração funciona como código de acesso ao lógos, ou seja, tem o poder de inserir, com vantagens, na ação teatral o território concreto das relações humanas (sociais, políticas, econômicas e outras) onde se dá a trajetória dos personagens. O personagem, assim, através da narração, se insere no território, no tempo e no espaço históricos, e, aí, busca um sentido pra sua ação e para sua existência. E desse conflito, das relações entre a personagem e seu universo histórico é possível surgir o lógos, a razão entre dois elementos contraditórios: personagem e meio.

Isto posto, uma questão se levanta, óbvia: Não é possível obter-se o logos tão somente com a ação representada, sem a inserção da narrativa? A resposta é também um óbvio "sim". Mas porque, então, os gregos e Shakespeare utilizavam tanto a narrativa? Não seria porque a narrativa potencializa a representação? E se ela tem essa potência como isso se dá na cena?

O SISTEMA NARRATIVO
O teatro desde o seu surgimento tem sido um sistema integrado de elementos épicos e dramáticos: em épocas mais remotas com forte predominância de elementos épicos e em épocas mais recentes com mais acentuada presença do elemento dramático. No século XIX o equilíbrio desses elementos foi fortemente alterado. Uma série bastante grande de fatores contribuiu para isso. E o teatro tornou-se um sistema fundamentalmente dramático. O exílio da narrativa no teatro provocou distorções. Uma delas pode ser verificada na artificialidade de alguns textos melodramáticos, no idealismo extremado, na bonomia inverossímil, no caráter maniqueísta de seus heróis e vilões. Os personagens, extraídos do contexto das relações humanas reais, tornam-se apenas emblemas de virtude ou vício. Afastados do fazer real, das relações humanas, a única realidade que resta é a subjetividade dos sentimentos. O teatro torna-se mais e mais "sentir", torna-se mais êxtase e emoção e menos saber. Nesses textos melodramáticos é até admirável a capacidade técnica dos seus autores em provocar emoção no público com personagens absolutamente desprovidos de humanidade. Personagens nessas peças são ferramentas hábeis para extrair emoção das platéias, mas muitas vezes não são, absolutamente, personagens pertencentes ao mundo real. A emoção paira exacerbada na atmosfera, mas carece de sentido. Talvez seja por isso que, hoje, nos causa riso o tom exageradamente emotivo desses velhos textos. Foi contra essa emoção fora de contexto que Brecht se insurgiu e com seu teatro épico propôs um novo re-equilíbrio dos elementos épicos e dramáticos presentes no teatro.

Mas o ostracismo da narrativa no teatro provocou outras mudanças. O espetáculo teatral tomou uma nova configuração: de arte sonora, cujo sentido privilegiado de acesso era a audição (em inglês, platéia ainda é audience) o espetáculo teatral tornou-se algo a ser, em primeiro lugar, visto. O público torna-se espectador, aquele que vê. Isso provocou alterações profundas na relação do espetáculo teatral com o público. Este passa a assistir o espetáculo. Esse "assistir" não é desprezível nem deixa de ser uma boa relação com a platéia, mas o fato é que fomos levados ao esquecimento de outras relações. No bojo do assistir, a quarta parede torna-se de fato uma instituição e o ato teatral torna-se profundamente representado. O espetáculo começa a acontecer fundamentalmente no palco. O assistir à representação ainda preserva a imaginação do público, mas, talvez, como menos intensidade.

No sistema narrativo, ao contrário, o público é o interlocutor privilegiado, a relação "olho no olho" entre personagens no palco transfere-se para "olho no olho" entre ator/narrador/personagem e público. A ponte obstruída pela "quarta parede" é novamente aberta. O sistema narrativo também lança mão da maior contribuição que público pode trazer ao espetáculo: uma imaginação ativa. Através da narrativa o público é também construtor das imagens do espetáculo e o espetáculo teatral, ao invés de ser um sistema predominantemente sensível, torna-se também um sistema fortemente imaginativo[4].

No entanto, a vantagem maior do sistema narrativo é que ele não exclui o vigor da representação dramática. Ao contrário, a abriga dentro de si, possibilitando inumeráveis combinações entre narração e representação. O limite é, de fato, a imaginação do palco e da platéia.

CONCLUSÃO
Esta é, de fato, uma conclusão precária. Tanto no que se refere às infinitas possibilidades do sistema narrativo quanto no que diz respeito a alguns tópicos levantados nesta generalizada reflexão. Cada um dos elementos e afirmações aqui levantados exigiria espaço maior, reflexão mais arguta e, seguramente, a contribuição de outros artistas e teóricos interessados no tema.

O que podemos concluir dos elementos aqui expostos é que a restauração da narrativa e o aprofundamento da pesquisa cênica em torno de suas características (a transmissão de experiências humanas e não de meras informações é apenas uma delas ) pode se juntar a uma série de iniciativas que visam a restauração de um imaginário comum entre palco e platéia e, a partir disso, construir um novo relacionamento. Bertolt Brecht com seu teatro épico apenas iniciou um caminho que pretendia um novo equilíbrio entre os elementos épicos e dramáticos existentes no teatro. Peter Weiss, Heiner Müller, Bernard-Marie Koltés e outros aprofundaram esse caminho, mas a pesquisa das possibilidades do sistema narrativo apenas se inicia. Creio firmemente que o sistema narrativo é um sistema de ganhos. É um sistema complementar ao sistema dramático/representativo e não exclui nenhuma conquista desse último. Ao contrário, provoca, lança desafios a todos os criadores e re-introduz o público como elemento construtor do espetáculo teatral. Sem a imaginação do público o teatro narrativo não existe.

Ao propor a partilha imaginativa de experiências humanas, o teatro narrativo solicita algo além da mera geometria estética. Propõe e pede a restauração da antiga unidade entre o público e o privado, o indivíduo e sua comunidade, a força progressista e de ruptura da imaginação individual e a solidez do imaginário coletivo.

Luís Alberto de Abreu é dramaturgo e estudioso de dramaturgia. Há mais de dez anos desenvolve estudos nessa área com autores jovens, no Grupo dos Dez (São Paulo) e Grupo ABC de Dramatugia (Escola Livre de Teatro de Santo André). Prepara livro sobre a relação entre a estrutura dramatúrgica e os mitos e arquétipos. Escreveu "Foi Bom, meu Bem?", "Bella Ciao", "Lima Barreto, Ao Terceiro Dia" e "Guerra Santa", entre outras peças. Há sete anos mantém , em São Paulo, com o diretor Ednaldo Freire a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, o Projeto de Comédia Popular Brasileira.
Atualmente voltado ao teatro narrativo desenvolve pesquisas que tem como base o teatro Nô, visando à criação de uma forma teatral breve e intensa. Entre suas peças criadas dentro do sistema narrativo destacam-se "O Livro de Jó", dirigida por Antonio Araújo com o Grupo Teatro da Vertigem, "Iepe" e "Till Eulenspiegel", com a Fraternal, dirigidas por Ednaldo Freire.

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[1] BAKHTIN, Mikhail. Cultura popular na Idade Média e no Renascimento : o contexto de Rabelais. São Paulo : Hucitec, 1987.
[2] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política : ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. De Sérgio P. Rouanet. São Paulo : Brasiliense, 1994. (Obras escolhidas; v. 1)
[3] Alguns estudiosos consideram "Longa Jornada Noite Adentro", de O' Neill, "A Morte do Caixeiro Viajante", de Arthur Miller, e até "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams, como dramas quando não tragédias. Eric Bentley, em seu livro "A experiência viva do teatro", considera-os como autores melodramáticos e partilho de sua opinião.
[4] Uma das mais belas e marcantes propostas desse jogo potente de imaginação entre palco e platéia é feita no prólogo de Henrique V, de Shakespeare, quando o ator confessa-se incapaz de representar sozinho a guerra entre França e Inglaterra e, humildemente, solicita a imaginação do público como precondição da existência do espetáculo.

A PERSONAGEM CONTEMPORÂNEA, LUIS ALBERTO DE ABREU



Em seu precioso livro de ensaios, "As origens da forma na arte", Herbert Read, afirma a determinada altura que "o poeta dá corpo às formas de coisas desconhecidas". E, se entendi com alguma precisão a delicada relação artista/ mundo/ obra que o autor discute ao longo dos nove ensaios que integram o livro citado, posso afirmar, a partir de Read, que uma das funções do artista e, talvez, a principal, é mergulhar no desconhecido do mundo, no caos das formas imprecisas e de lá extrair uma configuração, uma nova geometria, um corpo orgânico, necessário, atraente ou assustador, e oferecê-lo à humanidade.
Parecem claros os riscos assumidos pelo artista ao cumprir tal função. O mais evidente deles é fracassar miseravelmente: o mundo se apresenta por demais caótico e sua extensão e fragmentação afirmam, por si só, a temeridade da tentativa de extrair dele alguma configuração, alguma geometria que faça sentido. E se, por algum feliz acaso, chegarmos ao final da empreitada nada nos garante que tal "sentido" vai interessar às pessoas ou tocá-las de alguma forma. E também nesse caso toda pretensão e todo esforço terão se revelado inúteis. A impressão que se tem é que a esfinge continua indecifrável e, o que é pior, não sabemos onde ela se encontra e se a encontrarmos talvez não saibamos reconhecê-la.
A imagem da esfinge, numa reflexão que pretende discutir a personagem contemporânea, não poderia ser mais apropriada. Que imagem melhor representa o homem contemporâneo? Sabemos que houve ganhos e perdas nas profundas transformações por que passou a sociedade no último século. Mas quais e em que sentido? Que valores positivos ou negativos poderiam estruturar melhor a personagem contemporânea? Há, de fato, uma personagem contemporânea necessitando ser desvendada ou são suficientes as matrizes que os autores clássicos nos legaram? É possível a criação de novas matrizes ou a nós só resta fazer derivações das matrizes conhecidas?  A intuição pode nos indicar a ocorrência de alterações no conjunto de valores que estruturam a personagem e, por extensão, o próprio homem contemporâneo. A aventura arriscada é tentar identificá-las. 
         As questões que imediatamente se colocam são o que é uma personagem e qual a real necessidade de descobrir sua face contemporânea. A primeira questão parece mais fácil de ser respondida ou, pelo menos, já foi objeto de estudos bastante competentes desde Aristóteles até os nossos dias. Qualquer que seja a definição dada à personagem existe algum consenso entre os estudiosos. Um ponto comum entre eles aproxima a personagem do mundo real e afirma uma nítida relação entre a personagem e a pessoa humana. De alguma forma a personagem imita ações humanas, representa o ser humano. Outro ponto comum, ao contrário, distancia a personagem do mundo real à medida em que a torna elemento de ficção, submetida às necessidades do enredo, "cuja existência obedece às leis particulares que regem o texto"[1].  A própria seleção das ações humanas possíveis que um autor faz para construir uma personagem - segundo a necessidade e a coerência de seu texto - já a distancia do mundo real. A personagem, embora seja tributária desse mundo, é construída segundo leis da ficção e não da vida real.
         A poeta, dramaturga e professora Renata Pallottini nos traz uma precisa definição da personagem: "Personagem seria, isso sim, a imitação, e portanto a recriação dos traços fundamentais de pessoa ou pessoas, traços selecionados pelo poeta segundo seus próprios critérios"[2]. Nos termos "imitação", "recriação", e "próprios critérios" parece-me que já estão contidos tanto o afastamento quanto a proximidade da personagem com o mundo real. Proximidade e afastamento serão retomados ao longo dessa reflexão.
         A segunda questão se afigura bem mais complexa.  O que é "contemporâneo"? A pergunta pode parecer sem sentido se partirmos da constatação óbvia que tudo o que é presente, incluindo aí vida, pessoas, obras e personagens, é também contemporâneo. Um mito babilônico, uma peça grega, uma história medieval, uma tragédia de Shakespeare ou uma peça que se acabou de escrever e encenar e que consiga travar comunicação com o público atual é um fenômeno contemporâneo? Nesse sentido, a contemporaneidade seria determinada pela capacidade de uma obra travar contato com o público de hoje. Ou seja, o público determinaria o que é ou não é contemporâneo. É uma opinião respeitável se não tivesse alguns inconvenientes. O primeiro deles é que a questão "o que é contemporâneo" se revelaria inútil já que absolutamente tudo teria a marca da contemporaneidade. Segundo, que seríamos obrigados a delegar a resposta de uma questão teórica a um pretenso público que determinaria o que seria contemporâneo ou não, o que parece ser um contra-senso: questões teóricas devem ser resolvidas teoricamente e o mundo real "apenas"confirma ou refuta as resoluções alcançadas. Terceiro, e mais importante, é que o próprio público não é, necessariamente, porta-voz da consciência contemporânea. Coisas bem diferentes são viver no presente e ter consciência do presente. A consciência do presente e, mais, a representação do presente é a tarefa mais árdua que se impõe ao artista.
Quando consideramos a personagem contemporânea de forma alguma
excluímos dessa reflexão ou negamos validade à forma como as personagens foram desenvolvidas ao longo da história. A maneira como os gregos, Shakespeare, Molière e outros artistas representaram o ser humano através de suas personagens continuam não só válidas nos dias de hoje como constituem um riquíssimo material para a pesquisa e o estudo. Mas se fossem por si só suficientes, ao artista restaria apenas debruçar-se sobre as obras dos mestres e daí construir suas próprias personagens. O inconveniente seria a arte desvincular-se cada vez mais do real, tornar-se apenas a repetição de um padrão geométrico e perder a proximidade com o mundo e o ser humano reais. O olhar sobre o mundo contemporâneo parece ser, então, de fundamental importância. Mas o que olhar? E o que reconhecer como contemporâneo? Que caminhos poderia o artista trilhar no sentido de descobrir elementos de contemporaneidade para suas personagens?
         Apesar da íntima relação entre pessoa humana e personagem, esta, de maneira alguma, se confunde com retrato ou tem a pretensão de conter em si toda a complexidade do ser humano. Como ser de ficção, como construção humana, representa muito mais uma configuração que o engenho do artista - ou dos artistas, pois a complexidade da configuração não é obra individual - conseguiu estabelecer a partir do ser real. Nesse sentido, uma personagem também poderia ser encarada como o olhar que determinada época ou determinada cultura projeta sobre si mesma. É um espelho que não só reflete mas também complementa o ser humano. Um espelho a partir do qual o ser humano adquire uma consciência de si, mede-se e se estabelece a partir de seus defeitos e virtudes. Digo uma consciência de si porque essa consciência é transitória e, embora conservada, é superada por uma nova consciência, ou seja, uma nova configuração que o artista, ou melhor, os artistas estabelecem, alargando, através de suas personagens, a consciência que o ser humano tem de si mesmo. O desenvolvimento histórico da dramaturgia pode nos auxiliar a entender melhor essa questão.

PERSONAGEM E HISTÓRIA


Muito já se falou sobre a integridade dos personagens gregos. Com integridade queremos dizer que existe nesses personagens uma consonância entre discurso e ação, entre os objetivos que o personagem se propõe alcançar e a trajetória que se impõe, entre o que pensa e o que faz. E não só isso. Os personagens gregos já se apresentam, logo no início da ação, maduros, completos, prontos para a queda, para a tragédia. Devem estar em seu "melhor momento". É também característico nessas personagens, a consciência, ao final de suas trajetórias trágicas, de que foram os próprios erros que determinaram a desgraça. É essa tardia consciência do erro e da origem de suas desventuras que, ao mesmo tempo em que traz sofrimento ao personagem trágico os humaniza, faz com que percebam o próprio descomedimento, até que ponto ultrapassaram as medidas humanas. Ora, o erro ou o mal praticado só podem ser reconhecidos tendo por referência um conjunto de valores aceitos por um clã ou por uma comunidade. Assim, o herói que quase desfrutou poderes divinos se re-insere na comunidade humana, retorna à mesma condição e ao mesmo destino que os outros homens. Mitologicamente, a consciência é uma das formas do herói se humanizar, reparar seu erro e retornar ao convívio entre os homens. Fora isso lhe resta a morte, em geral por traição.
 No Renascimento, Shakespeare não só introduziu profundas modificações no universo das personagens como produziu nova casta delas, desconhecidas no mundo grego. Orestes, influenciado por Electra, sua irmã, vacila apenas por um momento em assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte do pai, Agamenon. Shakespeare, por sua vez, trabalhando temática semelhante, faz de Hamlet um herói reflexivo e extrai do impasse em que vive a personagem o próprio motivo da ação dramática. Hamlet não é de forma alguma um herói maduro, vertical, pronto para a ação, como um herói grego. Há nele uma perplexidade frente ao destino que se abre que alguns autores já apontaram como a mesma perplexidade vivida pelo homem renascentista, perdido entre a decadência dos valores medievais e as promessas e riscos do Renascimento.  "Romeu e Julieta" e "Otelo" são também representativos de uma casta nova de personagens, os heróis amorosos, que, se por um lado não são inexistentes entre os gregos também não foram protagonistas nem tiveram trajetórias tão elaboradas naquele teatro. Parece claro que os gregos, afirmando-se como cultura guerreira e expansionista, desenvolveram especial predileção em se ver representados pelos chamados heróis guerreiros (além da guerra, a política é uma atribuição desse herói) e pelas heroínas ligadas aos valores do sangue, geração e conservação do clã familiar. Heróis que não tinham como objetivo a organização e desenvolvimento da pólis e heroínas que não tinham em vista a geração e conservação do clã familiar só tiveram plena expressão no teatro com  Shakespeare. É evidente que o peso social que a mulher passa a ter na Europa a partir do século XI vai determinar uma mudança na representação do universo feminino no teatro.
Por outro lado, se nas personagens teatrais gregos o erro é determinado pela própria condição humana e, teoricamente, poderia ser evitado, ou concretamente reparado - desde que o herói tome consciência dele a tempo - em Shakespeare alguns personagens já não são capazes de identificar a raiz de seu erro, como Iago e Ricardo III. O que se percebe em Shakespeare, e se tornará cada vez mais evidente nos séculos subseqüentes, é que se inicia um lento e progressivo distanciamento dos personagens de suas origens, quer seja ela a comunidade humana, os valores familiares ou a própria história pessoal. Processo similar parece acontecer em nível social. O grupo familiar e a comunidade como universos estruturadores do indivíduo na cultura agrária medieval começam gradualmente a perder força dentro da nova ordem social burguesa que emerge. Os tradicionais valores da comunidade e da família vão sendo gradativa e profundamente modificados e substituídos por valores individuais. Não que isso seja em si negativo. A consciência individual tão bem expressa na personagem de Hamlet - o destino que ele tem pela frente é unicamente dele, não está ligado à pólis ou à nação dinamarquesa, ele é um indivíduo descolado da comunidade que lhe deu origem ao contrário de Édipo, Coriolano ou Henrique V, de Shakespeare - abriu para o homem riscos e potencialidades enormes.
Na nova ordem urbana os valores históricos e culturais da comunidade dissolvem-se na confusão de origens dos antigos camponeses, agora novos proletários, que habitam bairros periféricos; a família torna-se apenas uma unidade econômica desprovida de história, e, às vezes, nem isso[3]. Nesse contexto a representação que o ser humano passa a ter de si mesmo através das personagens vai ganhar novos contornos. O século XVIII e XIX foi bastante rico na representação simbólica das grandes transformações econômicas e sociais por que passaram os séculos anteriores e, no teatro, uma nova gama de personagens tentam expressar a visão que as pessoas têm, ou são levadas a ter de si próprias.
É uma época paradoxal. No drama burguês, os valores da personagem são marcadamente individuais (está cada vez mais distante a força que a família e a comunidade representavam ) e  determinada linhagem deles possui ainda alguma força, característica dos personagens clássicos, e tenta moldar o mundo a partir de valores menos universais, os valores da burguesia como extensão de seus próprios valores. Outra linhagem de personagens, originária das massas humanas despossuídas vão dar solidez a um novo gênero: o melodrama. Aqui também os personagens são individualizados, representam a si próprios, mas são desprovidos da grande força que impulsiona os personagens da tragédia e do drama. Se o mundo é o palco da luta para as personagens da tragédia e do drama, esse mesmo mundo no melodrama é um universo opressor, agressivo, violento e estranho. Seus personagens buscam refúgio na família, mas trata-se de uma família frágil, sujeita à destruição pelos vilões que habitam o mundo. Se no drama e na tragédia a moral e as leis devem ser, necessariamente, transgredidas ou reformadas, no melodrama elas são o caminho que leva à virtude. Aqui, a força da família e da comunidade está diluída ou extinguiu-se completamente. É interessante notar que no melodrama a história familiar, para os personagens pobres, perdeu-se. Enquanto na tragédia grega a família do herói tem uma história rica em realizações e que remontam até a ligações ancestrais com divindades e, no drama, percebe-se uma linhagem aristocrática, histórica, o herói melodramático oriundo das baixas camadas não tem história familiar, não tem raiz, não tem referência concreta no mundo.  De maneira semelhante, no mundo real, o proletário perdeu sua própria história. Sua ascendência, desimportante no novo contexto urbano, talvez ainda esteja presente de maneira esparsa nas memórias familiares ou tenha de fato ficado perdida na comunidade camponesa da qual ele foi deslocado em direção a um mundo estranho, complexo, fundado em outros valores que é o da cidade. De qualquer forma, a perda dos liames que o ligam às gerações passadas é só uma questão de tempo.
Separado de seu território real onde se assentava sua história, cultura e tradição e afastado das possibilidades da posse do mundo concreto pela nova ordem burguesa, ao proletário resta apenas o próprio corpo como posse real. O corpo é o território que lhe resta. A esses miseráveis resta, como último reduto, a posse do mundo interior, dos sentimentos e das virtudes. E sentimentos e virtudes em meio a um mundo caótico e pernicioso são o eixo fundamental do melodrama. Não é coincidência que o melodrama tenha ganhado forma e força entre a população pobre e periférica, na França do século XVIII. E talvez seja no melodrama, mais do que em qualquer outro gênero teatral, onde podemos verificar a contraditória relação de proximidade e afastamento do mundo real que, como vimos, caracteriza a personagem. Como representantes do mundo real, do homem do século XVIII, não existe nada mais distanciado do que as personagens do melodrama. O mundo, com sua rede complexa de contradições, inexiste ou é simples moldura para a ação. No entanto, é um gênero que, até hoje, mantém incomparável força de comunicação com o público. Quer queiramos ou não, parece ser, o melodrama, o gênero escolhido pelo grande público como o predileto. Mas é bom não esquecer que o melodrama é apenas um gênero entre outros igualmente respeitáveis e essa predileção possui razões objetivas, históricas e outras, que não cabe aqui discutir.
Essa época (séculos XVIII e século XIX) trouxe ainda outras gamas de personagens extremamente originais. Gerhart Hauptmann, por exemplo, um dos responsáveis pela introdução das tendências naturalistas no teatro alemão, criou no final do século XIX, personagens impressionantemente próximas do mundo real. E E Ibsen introduziu o que poderíamos definir como um terceiro nível na representação das personagens femininas. Enquanto entre os gregos é nítida a predileção por personagens femininas representantes da Grande Mãe, cujo impulso fundamental é gerar e conservar e se, com Shakespeare, a dramaturgia é acrescida das personagens amorosas, a personagem Nora, de Casa de Bonecas, de Ibsen, marca o advento de outra espécie de heroína: a mulher que ultrapassou os limites da maternidade, foi além da trajetória amorosa e vai em busca de uma nova trajetória. Obviamente, foram as novas condições sociais e econômicas, no final do século XIX,  que possibilitaram a fixação do imaginário dessa personagem que, se já era conhecida desde a antiguidade, só no século passado criaram-se  condições para sua aceitação social.

PERSONAGENS DESENRAIZADAS

Até o momento é possível perceber o processo de afastamento das personagens de suas fontes de poder, quer sejam elas deuses, comunidade ou clã. Personagens melodramáticos (e considero o melodrama um gênero tão importante quanto a tragédia, comédia ou drama) são vítimas frágeis de vilões e do azar, inconscientes não somente das fontes do poder como da origem de seus males. O mal no melodrama é abstrato, não é algo que pode ser combatido como no drama ou incorporado como na tragédia. O personagem melodramático é sujeito ao acaso e só o acaso é que pode vir em socorro de sua inocência. Blanche Dubois, Marguerite Gauthier, Willy Loman, James Tyrone, só para citar grandes personagens melodramáticos, são atormentados por intensos sofrimentos morais - e nada indica que o sofrimento de personagens trágicos sejam maiores que os do drama ou do melodrama - sem conseguir chegar à consciência da origem deles. A vida no melodrama se reduz a um jogo de dados onde o acaso é elemento mais importante do que a capacidade de luta do herói.
E, se no melodrama, podemos ver a alienação dos personagens do mundo concreto (geralmente os personagens são só sentimentos e idealização) o processo de afastamento torna-se mais agudo no século XX, alienando o personagem de si próprio. Talvez tenha sido Franz Kafka quem, concretamente, iniciou uma estirpe personagens que poderíamos chamar de "desenraizados". Enquanto os personagens gregos chegam ao final de sua trajetória trágica à consciência de sua culpa e, através dela, à redenção, à restauração da humanidade perdida ou em risco, as personagens kafkanianas são atormentadas por sofrimentos sem causa e, não importa o custo e a dor de sua trajetória, não chegarão à consciência. São personagens de um mundo concreto cuja raiz da crise que pode levá-los à perdição não pode ser encontrada. Joseph K. cumpre uma árdua trajetória para tentar descobrir de que crime é processado, sem sucesso; Gregor Samsa  acorda transformado em uma barata e não é capaz de saber por qual processo isso aconteceu. Diferentemente do melodrama, não existe idealização, virtude ou sentimentos. A realidade brutal, caótica, sem sentido impõe-se sobre o homem que não é capaz de perceber um sentido nisso. O mundo externo, palco de luta e objeto da ação ordenadora dos personagens trágicos e dramáticos ou sistema perigoso e indecifrável para os personagens melodramáticos, como que mergulha dentro do próprio homem e desagrega seu mundo interior. Não importa o esforço humano, as fontes de força externas se voltam contra ele, e de dentro de si mesmo, ele já não recebe nenhuma ajuda.
O mundo que nos pinta Kafka com seus personagens que, em vão, buscam um sentido para o que os aflige, pode parecer suficientemente trágico mas o processo se torna mais radical na segunda metade do século XX. Se é possível perceber, a partir das personagens gregas (caracterizadas pela maturidade e consonância entre discurso e ação) um conflito entre o caráter e o pensamento  que gradativamente vai se aprofundando, em Becket o abismo entre discurso e ação, entre caráter e pensamento assume proporções nunca imaginadas. Em "Esperando Godot", a memória, a faculdade que permite ao ser humano acesso à consciência de si e do mundo está profundamente comprometida. As imagens dançam na mente de Vladimir e Estragon sem se fixar e organizar um sentido, uma continuidade temporal ou lógica. São incapazes de articular um discurso e, se isso fosse possível, seria necessário um imenso esforço para conjugá-lo com a ação. E, se por acaso, isso acontecesse poderiam, então, cumprir uma longa trajetória em busca da consciência para, finalmente, perceber a origem do mal que os aflige. O passado não existe para Vladimir e Estragon. Eles não têm posse do dia anterior. Sentimentos, dores, alegrias, nenhuma lembrança ou sentimento nada se apega a sua mente, a não ser uma necessidade, absolutamente desprovida de sentido que é esperar Godot. São personagens completamente despossuídos de força para ação, incapazes de refazer o momento vivido anteriormente e que tentam desesperadamente dar um sentido às palavras que lhes brotam.
Os personagens de Becket compõem uma dramática e, ao mesmo tempo, profética imagem que só agora torna-se corriqueira em nosso dia a dia. Qual a diferença entre o processo mental de Vladimir e Estragon e de um garoto drogado por crack? Ou de alguém "drogado" por valores e imagens fugazes da indústria cultural ou ainda alguém "drogado" por um narcisismo hedonista sem consciência alguma de destino, clã, comunidade, sem consciência de si próprio, absolutamente incapaz de ordenar impulsos, estabelecer um discurso coerente e uma ação conseqüente?

Kafka e Becket estabeleceram uma excelente matriz para o estudo de elementos de composição da personagem contemporânea. Outros elementos deverão ser buscados na própria realidade. O que nos diz ela? A realidade contemporânea nos diz, e esta é a hipótese na busca da configuração da personagem contemporânea, que a alienação de si mesmo, característica dos personagens trabalhados por Kafka e Becket, talvez tenha se aprofundado ainda mais. Não estão apenas perplexos como Joseph K. nem  apenas com a ansiedade passiva de Vladimir e Estragon. Passaram à ação. Todos os dias, em qualquer lugar do mundo, topamos com consciências fragmentadas, com seres perplexos que, no entanto, agem. Uma ação descontínua, sem objetivo, sem sentido e, como toda ação teatral, dramática, violenta. Vladimir e Estragon cansaram-se de esperar Godot e, sem memória e, conseqüentemente sem valores, puseram-se em movimento e cruzam as ruas, ora tomados de furor, ora de passividade, ora perplexos, ora assaltados por compulsões que não conseguem conter.  Essa é uma das configurações possíveis. Esse enredo é conhecido e, na vida, vemos diariamente a sua representação.
Mas não tratamos, aqui, de enredos e sim de personagem. Nessa medida não nos basta o retratar esse tipo de ação. Isso tem sido feito à exaustão pelo cinema e também pelo teatro que tornam a violência no palco e na tela tão banal quanto no mundo real. Não basta retratar, a personagem é também uma "recriação" como bem apontou Renata Pallottini. O sentido, a geometria, tem de estar em algum lugar e esta é função do artista. A obra do artista não pode ser tão inconsciente quanto as personagens, caso contrário seria inútil. Quais as possibilidades de redenção de personagens desse tipo? Que caminhos podem indicar nesses personagens a restauração da humanidade perdida? Onde está a raiz do erro? Qual o processo mental desses seres de ficção? Essas são algumas das questões que a configuração desse tipo de personagem parece solicitar.
       Outras hipóteses sobre a personagem contemporânea podem e devem ser levantadas além desta, originária das matrizes desenvolvidas por Kafka e Becket. Por outro lado, é bom esclarecer, todas as matrizes anteriores permanecem perfeitamente válidas e operantes. As matrizes dos gregos, de Shakespeare, de Ibsen, Brecht e outros ainda continuam pedindo mais e mais personagens. Mas há também uma matriz contemporânea a ser desvendada em sua geometria e transformada em personagens. Há a necessidade da razão humana dar alguma geometria aos escombros que a intuição indica.


                           



[1] BRAIT,  Beth. A Personagem. São Paulo, Editora Ática, 1985, pág.29.
[2] PALLOTTINI, Renata.Dramaturgia. A construção do personagem. São Paulo, Editora Ática, 1989, pág.5.
[3] Mikhail Bakhtin, em "A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento" ( Ed. Hucitec, São Paulo, 1987 ), aborda de forma bastante interessante aspectos da decadência da noção de corpo social e da afirmação individualismo do período medieval ao século XIX.
Walter Benjamin, em  "O Narrador - Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov" - (in Magia e técnica, arte e política, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1985) analisa a decadência da narrativa em razão das modificações ocorridas na nova configuração econômica e social na Europa a partir do século XVII.