sábado, 28 de abril de 2012

CARTA DE DEMISSÃO

Eu precisava fazer isso antes que explodisse. Escrevi essa carta para poder expurgar todas as coisas ruins que estava sentindo. Foi como vomitar. Não lerei o que escrevi e nem revisarei.  E não sei como isso chegará até vocês, talvez algumas coisas fiquem confusas, mas era como estava me sentindo: confuso. 
Volto aqui no parágrafo inicial, após ter terminado o texto abaixo bem mais aliviado. Joguei tudo fora. Estou leve e em paz comigo mesmo. Nada do que está escrito aqui foi inventado. É tudo real, inclusive as falas. 
Deveria estar triste por pedir demissão de um trabalho que curtia fazer, só não curtia por estar preso a uma temática apenas, que, de certa forma, me emburrecia - meu filho que o diga - porque não podia explorar outras vertentes. ampliar mais os horizontes. 
Mas estou feliz. Feliz porque de agora em diante farei como eu quero, do jeito que quero e sem ninguém pra meter o bedelho. Sempre dizia:
- Se alguém meter o bedelho no meu trabalho, eu vou embora.
E metiam. E eu detestava isso. E estava detestando usar máscaras para agradar os outros. Mas não estava agradando a mim. Não estava sendo fiel a mim mesmo.  E quem é fiel a si mesmo, não é falso...  com ninguém. 
Estou pouco me importando que proporções este meu desabafo poderá tomar. 
Mas vou ligar o foda-se e ser feliz.



DE: JULIO CARRARA
PARA: REDE BOA NOVA DE SOROCABA


Desde que me conheço por gente, tenho consciência de que por mais que você faça algo para alguém, chegará uma hora em que esta pessoa vai lhe virar as costas e num momento em que você mais precisa. Não só no campo pessoal, mas no profissional também. As pessoas são capazes de cometer as piores atrocidades com o outro, se isso a beneficiará. Já escrevi muito a respeito disso em minhas obras e mais uma vez, escrevo.
Mas por que estou dizendo isso? Simplesmente porque ouvi hoje de manhã um dos maiores absurdos da minha vida. E essa pequena frase de extrema falta de respeito e consideração, foi a gota d'água para desmoronar o pouco de respeito que ainda existia de minha parte por esta pessoa e a instituição que ela representa.
Para que entendam melhor, vou contar a história desde o início. Poderão me chamar de antiético por revelar determinadas coisas que deveriam permanecer nos bastidores, encobertos por panos quentes, mas estou pouco me importando com isso. Se tem uma coisa que não admito é o desrespeito. 
Agora vamos para a história...

No início de 2008, encontrei na rua um amigo de classe, o Edynho, e ele sabendo que eu era ator, me perguntou se eu não tinha interesse em fazer um teste para trabalhar em radionovelas, pois a rádio que ele trabalhava como técnico, a Rede Boa Nova de Rádio, através do seu Núcleo de Dramaturgia estava selecionando atores para o casting. Como estava muito envolvido em meus projetos teatrais, disse que não dava para fazer, mas como sempre gostei de desafios, disse que, em vez de atuar, poderia escrever uma radionovela. 
Edynho me passou o telefone da rádio e entrei em contato com o diretor, autor, ator e produtor das radionovelas Sidney Carboni, que se interessou pela ideia e algumas semanas mais tarde, estava pronto o meu primeiro trabalho radiofônico: Uma Canção Pra Você.
A minissérie foi gravada e levada ao ar. Só então que descobri que no elenco dessa minissérie estavam Dado Carvalho, Geane de Paula e Ivone Martins, pessoas incríveis e que admirava muito, pois conhecia o trabalho do trio no teatro sorocabano, mas nunca imaginei que também atuassem em rádio. E nesta mesma minissérie,  fiquei chocado, no bom sentido da palavra, com Luciana Patrícia...  A primeira coisa que pensei ao ouvir a sua primeira cena, foi:
- Que atriz excepcional é essa? Que voz, que força! Como valorizou a personagem...
Adorei o resultado e após a exibição do último capítulo. Carboni pediu para que eu escrevesse outra minissérie. Como estava no meio de uma  temporada teatral em São Paulo, disse que enviaria a minissérie no ano seguinte. E no início de 2009, escrevi Morada do Sol, levada ao ar algum tempo depois. E com esse trabalho, fiquei apaixonado (apaixonado é pouco), pelo trabalho de Quitéria Maria, que deu um show de interpretação na pele de Nhanha. uma autista, que foi estuprada pelo padrasto alcoólatra, e por ter engravidado em consequência desse estupro, foi abandonada pela mãe numa instituição.
Como poderia existir um Núcleo de Radioteatro em Sorocaba, com atores, que não eram só atores, mas verdadeiras pérolas, que infelizmente, estavam fechadas em conchas e escondidas  no fundo do mar? Como  uma pessoa como Sidney Carboni, que além de escrever, dirigir, atuar e executar a contrarregragem de uma forma brilhante (só ele sabia fazer isso - e muito bem!), pudesse ser tão dedicado a esse trabalho? Enfim, fiquei encantado com tanta qualidade ali presente.
Infelizmente, pouco tempo depois da exibição do último capítulo de Morada do Sol, e na semana em que ia conhecê-lo, pois não o conhecia pessoalmente, Sidney Carboni teve um enfarte e morreu, deixando órfãos todos os seus personagens e a equipe que dirigia. E com o seu desaparecimento, as radionovelas (trabalho que ele dedicou durante mais de 40 anos)  também estavam condenadas a desaparecer,  se a direção da emissora não encontrasse alguém para dar prosseguimento ao trabalho.
Depois de uma reunião, chamaram um autor, mas não se contentaram com seu trabalho e ele abandonou o barco, que estava prestes a afundar.
Através de um membro do grupo de radioteatro, soube que a equipe estava desorientada.
Como eu poderia deixar todas aquelas pérolas sem fazer o que mais gostavam? Como deixar Ivone Soares (com 50 anos de rádio), Cledemir Araujo,  Adacel Alberto (filhos dos grandes radioatores Geralda Silva e Celso Ribeiro), que davam continuidade ao trabalho dos pais, sem poder trabalhar? E os atores mais jovens, que tinham tomando gosto pela coisa?
Não... Isso não podia acontecer.
Foi então que entrei em ação. Escrevi rapidamente uma minissérie, A Face do Abismo, e fui falar com o diretor da rádio, oferecendo o meu trabalho. Depois de quase 4 meses me cozinhando em banho-maria, finalmente aprovou o projeto e a minissérie foi gravada.
Assumi a enorme responsabilidade de escrever para a rádio. Por ser o único autor, precisava entregar um bloco semanal (5 capítulos) de 75 páginas, e mensal de 300 (20 capítulos).  Quem está de fora, não faz ideia do que é escrever 15 páginas por dia, de segunda à sexta-feira e sem o auxílio de colaboradores.  É escravidão chinesa. Você tem que ficar isolado de tudo, inutilizado para todo o resto e focado só nas histórias. Se deixa de escrever um só dia,  perde o fio condutor e tudo vai para o ralo.
Fiquei afastado dos meus amigos, do teatro e dos meus momentos de lazer, para me dedicar a esse trabalho, escrevendo um capítulo por dia e recebendo 1 real por página escrita.  300 páginas por mês, igual a 300 reais de cachê. Menos da metade de um salário mínimo, que não pagava nem os estudos do meu filho e muito menos os remédios para a gastrite que este trabalho me causou, de tanto nervosismo que passei.
Mas enfim, assumi o compromisso, e por extrema consideração à esses atores, ao Ulderico Amêndola e ao Sidney Carboni, meus antecessores, me mantive firme na luta. 
Escrevi em 2 anos e meio, 40 minisséries. Não estou querendo  me gabar, mas não é qualquer um que abandona sua vida pessoal para ficar 8, 12, 15, 20 horas diárias na frente do notebook, produzindo um capítulo e ainda ter algumas obras censuradas, por conter nelas, personagens preconceituosos. O personagem é preconceituoso, não eu... Enfim, o politicamente correto tinha que estar presente nas obras.  Não pode haver personagens com desvio de conduta. Mas todos os meus personagens são seres humanos, com defeitos e qualidades. Não sei e não quero escrever de outra forma.
Comecei a ir às gravações e acolhi toda aquelas pessoas - exceto uma, e já explicarei o porque - não como atores, mas como membros da minha família: Adacel Alberto, Carmem Lara, Cledemir Araújo, Luciana Patrícia, Chico Ribeiro, Ivone Martins, Ivone Soares, Benê Abdalla, Fabio Mendes. Quitéria Maria, Osnival Búfalo, Ofélia Vivi,  João Camilo, Cláudio Zelizi, Maria Cunha,  Maria Helena Antunes, Ester Patrocínio. Richard Godoy, Joel, Tadeu e Vanderson (espero não ter me esquecido de ninguém).  Não, Dado Carvalho, não me esqueci de você. Dado Carvalho, para quem não sabe, além de um grande ator, é um dos melhores narradores que conheci, e que a emissora perdeu, por motivos que explicarei mais adiante.
E a cada gravação, descobria mais preciosidades que aquelas pessoas tinham para me oferecer. E fui criando personagens especialmente para eles e tomando os cuidados para que não fossem "ator de um personagem só",  que saíssem da zona de conforto e explorassem suas potencialidades vocais e tudo mais. Capacidade eles tinham de sobra. E tinha chegado a hora de modernizar as radionovelas da emissora, que apesar de incríveis, ainda trazia o ranço dos anos 40.
Foi aí que começaram os problemas.
O ego é um dos piores inimigos do artista. É evidente que ninguém está livre dele, mas quando o egoísmo e o egocentrismo de determinado artista fica evidente aos olhos de todos, a coisa se complica.  
Eu fiquei incumbido de escrever os textos e a direção ficou a cargo de Tony de França, que em vez de só dirigir e, quando necessário, fazer algumas "pontas", não se contentou só com isso. Queria dirigir, fazer a contrarregragem e atuar (não em papeis secundários, mas sempre como protagonista), "roubando" determinado personagem para si, personagem que eu havia escrito para um ator específico, (porque.o protagonista aparece em todos os capítulos, e assim ele receberia o cachê mais alto) e deixando em segundo plano, os outros atores.
E sequer teve a humildade de deixar de atuar numa minissérie para dar descanso da sua voz para o ouvinte. Mas como ele mesmo disse uma vez: 
- Eu sou o Coringa. Sou o único aqui que faço muitas vozes. Por isso posso fazer não 1, mas 2 ou 3 personagens na mesma história."
Todas as minhas minisséries estão disponíveis para ouvir no meu blog.  Ouçam e depois me respondam se o que ele afirma, é verdade.
E o desrespeito só foi aumentando. Isso de ambas as partes.  E eu só respeito quem me respeita. 
Tony de França tentava ser um novo Sidney Carboni. Sinto lhe dizer, meu caro, mas está longe de ser. E talvez, pelo fato de não ter o mesmo talento dele, é que seja frustrado. Se executasse uma função apenas, poderia até ser. Mas como o ego fala mais alto e quer fazer tudo, o resultado, infelizmente, é catastrófico.
Tentem se colocar no meu lugar. Você escreve uma história, já conhecendo o que determinado ator é capaz de  oferecer, escala os mesmos para isso, escreve determinado papel para um ator X, e de repente, no dia da gravação, você descobre que os atores foram substituídos sem o seu aval...  e que  Tony de França  é o protagonista...  Novidade, não? 
Aí tem início a gravação. Os atores formam uma corrente e Tony de França diz para a equipe que ali deve reinar a paz e a harmonia, mas assim que um ator engasga, erra o texto ou ri, (o que é extremamente natural), aquele estúdio se transforma num campo minado.  Gritos de ordem, liçõezinhas de moral, ofensas gratuitas, e, infeliz daquele que esquece o celular ligado!!!!! É o fim! Mas quando o celular de  Tony de França  toca interrompendo uma cena e o elenco chia... pra que!
Ele pode. Afinal de contas, ele é uma autoridade, palavra que diz com gosto,  estufando o peito, levantando o queixo com empáfia e com o olhar como quem diz: vocês não são nada.
Quem é que aguenta um ambiente assim? Onde deveria reinar o bom humor, só vejo atores tensos entrando no estúdio como se fossem animais prestes a ser abatidos num matadouro... E ficam assim durante 2 horas e, ainda bem, esses encontros só aconteciam uma vez na semana.  2 horas de muito martírio e que deveriam ser de bem-estar.
Mas nunca foi assim. 
Tentei dialogar com  Tony de França  decidir as coisas pacificamente, mas nunca fui ouvido. Aí percebi que era como misturar água e óleo. Não ia dar certo mesmo. 
Levei os problemas ao conhecimento de seu Gastão, o diretor da rádio, que ficou de tomar uma atitude. Meses depois nenhuma atitude havia sido tomada e tudo continuava como dantes no quartel de Abrantes. 
Mais minisséries entregues, mais grosserias, atraso nos pagamentos dos cachês, mais aborrecimentos e nada mudava.
O programa Revista de Sábado, da TV TEM me contatou para fazer uma matéria sobre radioteatro que seria exibida no programa. Contatei alguns atores, os que tinham mais tempo de rádio e os que estavam começando agora. Pedi o estúdio para a direção da emissora, enfatizando que seria para fazer uma gravação sobre radioteatro. O estúdio foi liberado, a gravação foi feita, e como   Tony de França estava fora da cidade, não compareceu à gravação. 
No dia seguinte, quando soube que a matéria havia sido gravada,  Tony de França  fez um escarcéu dos diabos e veio, com a sua peruquinha arrepiada de raiva - cheguei a ver fumaça saindo pelos seus orifícios - me dizer que a TV deveria vir à Rádio no dia de gravação e que eles tinham que se adequar à agenda da Rede Boa Nova e não à deles.  Isso mostrou claramente a sua falta de conhecimento em relação a pauta e agenda de um programa de TV e todo o seu despeito por ter perdido a oportunidade de estar na frente das câmeras, se pavoneando como gostaria e puxando o saco, como é de hábito.
Aí me irritei, subi à sala de Marcos, já que o seu Gastão não se encontrava mais ali, e disse que estava deixando a rádio. Marcos ficou assustado e pediu para voltar  alguns dias depois, para uma reunião com o seu Gastão.
Retornei alguns dias depois, acompanhado de Dado Carvalho, que havia deixado a rádio exatamente pela falta de ética e profissionalismo de   Tony de França   (esse foi o motivo da sua saída), e assim que entramos na sala de seu Gastão,  em pé - já que não fomos convidados a nos sentar, como a boa educação permite - expomos tudo o que estava acontecendo.
E dei um ultimato   ao chefe: 
- Ou o   Tony de França   ou eu... 
Quando um trabalho não flui como deveria, alguém tem de sair.
Mas como é de praxe neste ambiente, e as coisas tem que ser resolvidas amistosamente, para não ferir ninguém, seu Gastão pediu mais um tempo para decidir.
Duas semanas depois. recebo um telefonema dele, dizendo que era melhor deixar as coisas como estavam, que o   Tony de França  era grosso mesmo e que era pra eu continuar escrevendo minhas novelinhas (por aí dá pra perceber o quanto meu trabalho foi valorizado ali, né?).
Suspirei fundo, e respondi:
- Ok. Eu  continuo. Mas EU escalarei os atores.
Com a afirmativa do chefe, desliguei o telefone.  
Mas por que disse que continuaria, se não tava feliz ali? Eu seria sadomasoquista? 
Porque eu já tinha algumas obras escritas e não ia perdê-las. Nenhuma outra rádio se interessaria por minisséries com temáticas espíritas. Apenas por esse motivo que disse que sim.
Enviei as 5 histórias que já estavam prontas, com a escalação desejada... E para variar, fato que já é mais do que previsível, não fui respeitado na escalação que havia feito.
Respirei fundo e pensei:
- Tudo bem. São as últimas minisséries mesmo. Ainda bem que são obras que não dou a menor importância.
E não foi despeito. É que literatura espírita é horrenda mesmo. Aliás, nem de literatura deveria ser chamada. Poderia receber qualquer nome, menos literatura... Então, tanto faz...São obras que não entrarão no meu curriculo.
E para concluir o que deixei em aberto no início desta carta, dizendo que hoje tinha ouvido um grande absurdo, relatarei como aconteceu...

9 horas da manhã. O celular toca. No visor, a identificação do número da rádio. Atendo. Seu Gastão do outro lado da linha, quer tirar dúvidas sobre a sinopse.  Esclareço-as... Quando ia desligar, pois estava cansado, e o horário que durmo é das 6h às 12h, já que trabalhei de madrugada, seu Gastão me pergunta por que faço tanta questão de escolher tal ator para tal papel... Pacientemente, como se explica para uma criança de 2 anos, respondi:
- Porque eu sou o autor. E quem melhor do que o autor para saber quem fica melhor para determinado papel?
Enquanto falava, pensava:
"Ah, lá foi o   Tony de França   encher o saco dele."
Aí ele me perguntou se o papel que tinha destinado para o   Tony de França era pequeno.
Lá veio a frase de Stanislavski no meu pensamento:
- Não existem pequenos papeis, mas pequenos atores.
Respondi que era um personagem importante, como todos são. E não tinha entregue um personagem para ele, mas dois: um zelador que aparece numa ponta. 
Se   Tony de França   muda de voz com facilidade e se fica feliz em fazer dois papeis numa minissérie, por que não fazer a sua vontade?
Aí seu Gastão me disse para dar esse papel pra outra pessoa, porque a voz ia ficar parecida.
Pensei: 
"Ué, mas o   Tony de França  não muda de voz com facilidade? Ele não é o Coringa? Será que o personagem não está à altura dele?"
E agora pergunto a vocês:
- Por que vou chamar um ator, para acordar cedo, gastar combustível ou enfrentar ônibus, trânsito, pagar estacionamento, pra chegar no estúdio e gravar meia dúzia de palavras, se posso usar um ator que já está escalado? Que falta de senso é esse?
Isso aconteceu muito com o Adacel, que sempre foi escalado (pelo   Tony de França ), para fazer pontas.  E a justificativa de   Tony de França   para esse fato era:
- Você, Adacel., só serve pra fazer Preto Velho.
Mais um grande equívoco. Para seu conhecimento,   Tony de França , o Adacel é um excelente ator. Muito melhor do que imagina. E já tive provas disso. 
E quando achava que aquela conversa telefônica iria acabar, nem desconfiava de que o pior ainda estava por vir:
- Carrara - dizia seu Gastão. - Quando for escrever, ponha 3 ou 4 personagens importantes. Não precisa se preocupar com os outros que eles não são grande coisa...
Eu, que estava deitado na cama, me sentei pelo efeito do choque e ergui a voz:
- É claro que pra vocês, eles não são grande coisa.  O   Tony de França  nunca dá chance pra eles. Mas  são ótimos, seu Gastão. E digo isso com conhecimento de causa. Se tem uma coisa que sei distinguir com perfeição é um ator bom de um ator ruim. 
Percebendo a minha alteração, seu Gastão recuou, saindo rapidamente pela tangente, como é de costume, se despediu e desligou.
Respirei fundo. Joguei o celular de lado. Deitei na cama e não consegui mais dormir. Virava de um lado para o outro com aquelas frases martelando na minha cabeça. 
Um ator que sai de sua casa, se dirige pra rádio, com sol, chuva,. enfrenta um terremoto e tsunami que o "diretor" provoca, que se dedica, que estuda o papel, que ganha 6 reais (eu disse 6 reais) por capítulo gravado, com um contrato de gaveta assinado como trabalho voluntário.... como pode ser chamado de "não ser grande coisa."
A direção da Rádio Boa Nova de Sorocaba prefere perder grandes atores como Dado Carvalho, Geane de Paula, enfim, uma equipe inteira, para preservar Tony de França, que do seu pedestal e protegido por uma redoma de vidro,  faz o que quer ali.  É que deve haver algo de podre no reino da Dinamarca.
Quem não é grande coisa, seu Gastão, é o   Tony de França  
Mas como para a direção da emissora ele não é visto assim, e já me deram muitas provas de que não represento nada aí dentro, assim como os atores que integram o casting, estou tirando meu time de campo.  Estou me demitindo porque tenho consciência do meu valor e se essa emissora não me respeita, outra vai me respeitar.  
Estão querendo que eu continue? Sim. Continuo. Mas quero registro em carteira, plano de saúde, vale-transporte e um salário de 15 mil reais mensais. Aí eu engulo o Tony, deixo que ele continue destruindo meus textos e usaria pseudônimo pra me esconder. Eu honro o meu nome e não  permito que o joguem na lama, como aconteceu em várias minisséries. Mas como sei que não vão me atender, já estou de malas prontas. Não vou mais engolir sapos. 
Agora faço ideia de como o Carboni sofreu aí dentro. E como não quero enfartar nem morrer de câncer, pois tenho um filho e amo a minha vida, estou pegando a estrada.  Mas para não deixá-los na mão, indicarei um autor para me substituir:  Tony de França . Se ele dirige, atua, faz contrarregragem e é o queridinho de vocês, pode muito bem escrever os textos. E exijam dele o mesmo que exigiram de mim: 300 páginas por mês e pagando por esse trabalho 1 real  por cada página produzida.
Se tem uma coisa que não suporto é a hipocrisia. Não consigo trabalhar num lugar onde as pessoas pregam de uma forma e agem de outra. E não me adapto a isso. E como diz o ditado: "os incomodados que se mudem.", estou me mudando. Partindo pra outra e muito aliviado por ter cumprido dignamente as minhas obrigações.
O que levo de melhor, foi o encontro com esse elenco maravilhoso, que pra emissora, não são grande coisa, mas pra mim, são. São vitoriosos. E não preciso explicar o porque! Contem comigo, meus amigos. Eu prometi e vou cumprir. Não abandonarei vocês. Obrigado por todas as coisas maravilhosas que me proporcionaram.

OBSERVAÇÕES::
1) Enfatizei o nome de  Tony de França , porque, afinal de contas ele é uma autoridade. E autoridade tem que ser tratada com respeito...

2) Repetirei aqui uma frase que usei no release do meu espetáculo Adega dos Anjos, que focava o catolicismo e todas as suas barbáries. Não pretendo com essa carta, denegrir a doutrina espírita, que é fantástica, mas com os homens que tomam conta dela. 

Ainda continuarei postando as minisséries que estão sendo levadas ao ar pela Boa Nova. Não pensem que voltei à emissora  por continuar postando. É que ainda tem algumas gravadas e que estão sendo editadas pelo Vanderson, e isso pode levar algum tempo.




Um comentário:

  1. Querido, Julio...
    Bem entendo esse seu desabafo, porque imagino como se sente.
    Realmente, larguei a radionovela por não suportar o ego do TONY DE FRANÇA, que além de autoritário é egoísta e falso... quando o Carboni morreu, o TONY estava sem conversar comigo, com o Tadeu e com o Sidnei. Na reunião seguinte chegou com cara de cobra, beijando-nos a todos... tive muito nojo. Pois todos que estavamos presentes percebemos que o que ele queria é o lugar do Sidnei, ha ha ha, tão medíocre como ator e como pessoa, como poderia superar a genialidade e humildade do Carboni. Fizemos uma votação naquele mesmo dia e escolhemos o Chico Ribeiro para dirigir e eu para escrever o texto... O S. Gastão colocou o TONY FRANÇA desrespeitando totalmente a nossa escolha. Saí imediatamente da radio, pois não gosto de trabalhar com pessoas falsas. Doeu-me muito abandonar um trabalho que tanto amava, com pessoas fabulosas (elenco e Tadeu) para um cara que jamais conseguiria chegar aos pés do Carboni. Sei o quanto o Sidnei amava aquilo tudo e eu também, mas desde o principio sabia que iria me estressar com o TONY DE FRANÇA e com o S. Gastão, que parece viver num eterno em cima do muro. Seu Gastão que abra os olhos.
    Mas, discordo de voce totalmente, Julio, quando fala da literatura espírita... temos ótimos autores e livros maravilhosos que são vendidos em muitos países. Talvez voce só tenha conhecido o lixo. Creio que não quis ofender, mas ficou por um fio, menino... Conheço seu trabalho e respeito-o muito, te avisei sobre o TONY DE FRANÇA... Direi a voce, uma frase que um amigo, não citarei nomes para não envolve-lo, me disse quando saí da radio: Dê cordas ao TONY DE FRANÇA, o imperador da peruca rosa (esse subtitulo fui eu, kkk), e ele se enforcará sozinho. Oxalá... Amém... beijos, Julio... adoro voce.

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